a dona desse blog
é de uma teimosia absurda. além de ser psicóloga, é leitora, aspirante à escritora, filha, irmã, tia e amiga, é indecisa por natureza, não sabe fazer planos e deixa sua vida ser dominada por uma ansiedade que ela sempre achou que disfarçava bem. acha que todo dia é ideal pra questionar se suas ações estão certas, se está sendo justa consigo, se faz o que gosta (e por enquanto faz). é uma dessas pessoas que gosta da solidão da própria companhia mas não dispensa uma cervejinha com aquelas pessoas que sabem conversar, de preferência em um boteco bem boteco, porque estes servem as mais geladas.

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  domingo, 6 de fevereiro de 2011
Sobre vida que vive

Take only what you need, my love
And leave the rest behind
Don’t be afraid of where we go, my love
I promise we'll be fine

Em dezembro, quando a especialização de São Paulo terminou eu disse o seguinte: [...] ano que vem, eu não sei o que vai ser. Posso dizer que não quero viajar de ônibus nem daqui à Campo Largo. Mas não vou falar muito alto, porque o acaso da vida pode ouvir e me dizer o contrário.

Pois é. A cada dia chego mais à conclusão que a minha vida vai acontecendo e eu tenho que sair correndo pra acompanhar. É como se eu estivesse sempre um passo atrás, como se a minha vida que me vivesse, e não o contrário. Algumas pessoas conseguem a constância, sabe? Conseguem imaginar tudo o que vai acontecer nos próximos meses, anos, décadas. Por exemplo, meus pais e minha irmã do meio. Morando há muito tempo na mesma cidade, na mesma casa, fazendo as mesmas coisas e parecendo satisfeitos com isso. Pensando que mudar é doloroso.

Já a minha irmã mais velha aprendeu a se desapegar, porque se ela ficar triste cada vez que deixa uma casa pra trás, e se pensar nos móveis que se estragam a cada mudança, possivelmente o tempo entre uma cidade e outra seria pouco para recomeçar, porque perde-se muito tempo pensando no que ficou. Acho que ela aprendeu que o que importa é ter a família dela e dinheiro pra viajar e ver os outros que ficaram. E se os guarda-roupas não duram nada porque estão sempre sendo desmontados, deixa pra lá. Não faz mal.

E eu? Quanto mais a minha vida passa, mais parece que eu não tenho lugar. Quando eu cheguei numa cidade, montei a minha casa do meu jeito, adorei pintar parede, fazer almofada, comprar porta-retratos e enfeites, foi como se eu tivesse encontrado. Foi como se morar sozinha fosse realmente o que faltava pra eu me tornar melhor, menos irritável, menos cínica. Ao mesmo tempo em que eu sentia que poderia também ficar cheia de hábitos de pessoas que têm tudo do seu jeito.

Gosto tanto de Curitiba. Ter vindo não poderia ter sido decisão mais acertada. Mas quando a insônia chega, um alarme antigo começa a disparar. Sou eu querendo me contar alguma coisa, sou eu querendo abrir uns lugares que educadamente deixei fechados (como quando o quarto tá bagunçado e a gente fecha a porta se a visita chega). Só que a visita também era eu querendo saber porque caralhos eu não consigo dormir, mais exigente do que nunca, sem me contentar com qualquer resposta e com muitas dificuldades de encontrar as que procura.

Enfim, pra que algumas dessas portas voltassem a ser abertas eu precisava estabelecer algumas prioridades. E voltar pra análise era a primeira. E eu percebi isso quando, na última segunda feira, virando de um lado pro outro na cama, falei em voz alta: preciso voltar a trabalhar. E não é que eu não tenha tentado. Distribuí currículos, falei com pessoas e...cri, cri, cri. E aquele incômodo crescendo, aquele "algo" errado que eu sabia o que era me incomodando. Depois desse pensamento dito em voz alta pra mim mesma, quando no dia seguinte eu recebi uma ligação, não tive dúvida da resposta. Não pensei porque já estava pensado e a resposta foi sim.

Não, não dá pra virar as costas para uma vida que despenca na sua frente. Isso me lembra A insustentável leveza do ser, quando Tereza chega à casa de Tomás, ensopada e doente. E ele sabe que aceitar que ela entre é um caminho sem volta. Acho que existem muitas situações exatamente desse jeito. Dessas que não podem ser ignoradas quando chegam, porque chegam exatamente quando você precisa e, talvez, porque você precisa. Precisa de um monte de coisa que poderia colocar numa lista em que a primeira resume as outras e basta: existir.

E nisso de existir eu tô voltando. Vai ser devagar e eu não sei se definitivamente. Mas 500 km serão percorridos por semana daqui para frente. Não vou voltar de vez porque aqui eu tenho uma pendência, uma pendência com a minha formação que é muito difícil explicar, mas que se resumiria bem em desejo. E se existe esse desejo, não tem problema viajar. Porque junto com ele, outro se realiza que é trabalhar, voltar a dar aulas, voltar a ser professora, que eu gosto tanto.

E sabe qual é a outra novidade boa? Que uma das disciplinas que eu vou dar é Psicologia Social! E mal posso esperar para começar e falar sobre o que é ideologia, sobre Marx e Hegel, sobre Revolução dos Bichos e Mal estar na civilização e mais um monte de coisas que eu consigo pensar pra mostrar o quanto essa parte da psicologia é MUITO legal, porque é uma entre muitas oportunidades de a gente começar a pensar um tantinho, mas sem papagaiar, que isso é muito chato.

Let’s sail away
With a whisper and a kiss
Or vanish from a road somewhere
Like Tereza and Tomas
Suspended in this bliss
(Tereza and Tomas, Bright Eyes)

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