a dona desse blog
é de uma teimosia absurda. além de ser psicóloga, é leitora, aspirante à escritora, filha, irmã, tia e amiga, é indecisa por natureza, não sabe fazer planos e deixa sua vida ser dominada por uma ansiedade que ela sempre achou que disfarçava bem. acha que todo dia é ideal pra questionar se suas ações estão certas, se está sendo justa consigo, se faz o que gosta (e por enquanto faz). é uma dessas pessoas que gosta da solidão da própria companhia mas não dispensa uma cervejinha com aquelas pessoas que sabem conversar, de preferência em um boteco bem boteco, porque estes servem as mais geladas.

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  segunda-feira, 26 de março de 2012
Sobre o fim do mestrado

Às vezes a gente tem a sorte de fazer coisas que desejaria que não terminassem nunca. Foi assim com a faculdade que eu adorava e foi assim com o mestrado. 

Faz dois anos, mas parece que faz muito mais tempo, eu cheguei na casa da minha amiga chorando. Era a segunda semana de aula e eu tinha tido um encontro ruim com uma pessoa que hoje eu acho tão doente que consigo rever aquele meu desejo de vê-la atropelada por um biarticulado sentido Barreirinha. Naquele dia eu entendi que as coisas poderiam não ser fáceis. Eu tinha que trabalhar e tentar pagar a maior parte das minhas contas, coisa que eu já fazia antes de  pedir demissão de um emprego e licença não-remunerada do outro. 

Mas não posso acusar a minha vida de madrasta. Fui chamada para trabalhar em um programa para o qual tinha feito teste seletivo mais de um ano antes. Alguns dizem que eu tenho muita sorte. Há quem acredite que eu seja abençoada. Eu não sei o que é, mas confesso que às vezes também me surpreendo. Então, comecei a trabalhar, estudar mais, continuava viajando todas as semanas, e descobri que aquele probleminha das primeiras semanas de aulas se transformaria em um problemão.

Um problemão que terminou no dia em que ouvi que eu não tinha a menor condição de terminar o mestrado porque eu não me dedicava. O peso dessa afirmação. Não consigo nem dizer o quanto ela foi pesada. Só que passou, como costumam passar as coisas ruins quando a gente faz o que está ao alcance para que passem. E o trabalho andou e eu fui descobrindo, pouco a pouco, uma coisa muito bonita.

Eu descobri que eu não sabia nada a respeito da psicanálise. Nada quando comparado com tudo o que eu tinha quando comecei a pesquisa. Nunca acreditei muito na qualidade das coisas que eu escrevo. Achei o anteprojeto ruim, o projeto, o material que enviei pra qualificação. Fiquei muito surpresa com as coisas que ouvi então. 

Foi o que precisava pra continuar. Isso e todas as perspectivas que se abriram, as idéias, nortes, sugestões. Ouvi todas. Acatei as que eu percebi que estavam ao meu alcance. Não bati o pé, não defendi uma posição por muito tempo quando os que eram mais experientes me diziam para fazer diferente. Posso dizer com muita sinceridade que esse trabalho foi escrito por mais gente. Eu tive um orientador que me deixou ir até onde eu podia. Me ajudou a ter uma perspectiva diferente de produzir a partir da psicanálise.

Sobre a minha banca, preciso nem dizer que tive um dos melhores encontros da minha vida. Uma professora de quem é impossível não gostar. Porque ela é inteligente, trabalha pra caramba e, especialmente, porque ela se dá àquilo que se propõe. Imagina que você vai fazer uma pesquisa sobre uma lista de textos para um capítulo e descobre que eles já estavam todos lá, anotados a mão no final do texto? Que ela já tinha tido esse trabalho?! Queria poder tomar café com ela uma vez por semana pra trocar ideia e ouvir aquele sotaque gostoso. Ai, que vontade de ir pra Minas Gerais.

E a outra professora  me mostrou o que eu precisava ouvir de alguém que não vende, não troca e não empresta  o que eu considerei inegociável. Quando você confia alguém para a sua banca, as falhas precisam aparecer! Precisam ser ditas. E quando ditas com suavidade, sempre soam melhores. Que eu aprenda a fazer isso um dia.

Eu não queria que o mestrado terminasse. Eu gostei de cada parte, mesmo aquelas em que achei que não ia dar certo. Em que chorei e me descabelei. Em que liguei para as pessoas para dizer que tava bloqueada. Eu gostei tanto de ter lido Freud, de ter escrito. E agora acabou. E eu preciso dar um jeito de que a pesquisa não termine aqui. Preciso de um doutorado. Pra ontem! 

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  sábado, 17 de março de 2012
Sobre ônus


Às vezes a gente escuta que é difícil tomar a decisão certa. Eu não sei se vou tomar isso como regra, mas hoje comecei a pensar que, quando a decisão certa torna-se dura, é porque a gente não tá disposto a abrir mão das recompensas minguadas que a decisão errada traz. 

Então, quando diante de dois caminhos (ou três, quatro, infinitos...Quem disse que a vida é fácil?), você decide aquele que já sabe que é o errado, acho que o mínimo a fazer é se questionar. Porque quando a gente se questiona, quando efetivamente olha para as razões das nossas decisões, é inevitável encontrar um responsável em frente ao espelho.

Mas olha, eu vou dizer uma coisa importante. Eu tô falando em certo e errado e sei que isso soa moralista. Só que não é a minha intenção falar em valores morais. Esse questionamento que eu estou fazendo não tem nada a ver com o certo e o errado cuja baliza eu devo procurar no olhar do outro. Na verdade, no que eu tô pensando é num certo errado cuja perspectiva é uma dor. Dessas que não se explicam facilmente, porque do lado de fora sempre parece fácil demais dizer o que fazer e o que não fazer (é aí que eu percebo que esse olhar do outro também é o meu olhar, mas não o meu mais meu, mais o meu próprio olhar acostumado aos julgamentos).

É tão incoerente para mim pensar em um ser humano que, com o poder das palavras que vêm de fora, pode transformar a vida, mudar escolhas e ser mais feliz. Como se a gente fosse feito de só um tipo de matéria, como se nossa constituição à maneira como se deu não tivesse implicado inclusive o sacrifício dessa completude, dessa solidez.

Não somos sólidos, não somos unos. Somos, ao contrário, um turbilhão de divisões. Para alguns fica impossível se deparar com isso. Para outros, a cada vez que uma dessas divisões se apresenta, a sensação é da confirmação de uma certeza que, ainda assim, é sempre surpreendente: não é que partes de mim funcionam mesmo independente do meu olhar?

Eu falei tudo isso porque hoje, naquele estado meio torpe que a gente fica quando acaba de acordar, entre desligar o despertador e dormir mais cinco minutos, eu me dei conta que a posição que eu assumi um pouco antes de dormir, aquela de pagar o preço pelo sofrimento a troco de satisfações minguadas, não poderia continuar. O mais engraçado é que, depois de uma noite de sonhos, não pareceu tão difícil assim quanto parecia na hora de dormir, quando eu pensava dever alguma coisa.

Talvez seja de pensarmos se, quando pensamos dever alguma coisa, o que a gente não gostaria era que algo nos fosse devido. O problema, e esse é meu velho e eterno problema, é que no que diz repeito ao que a gente entrega aos que nos cativam, não tem troco, não tem devolução e nem direito algum. Eu já disse isso muitas vezes e repito que nessas situações a diferença é entre o que você está disposta e dar e o que o outro está disposto a receber. O troco, portanto, fica por sua conta. O ônus é seu, campeão.

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  segunda-feira, 12 de março de 2012
Sobre o que eu não acho bonito

Não sei se é falta de tempo, mas tenho certeza que não é falta de assunto o fato de fazer tantos dias que eu não escrevo nada por aqui. Já me disseram que esse lugar aqui é meu termômetro de estado de espírito. Já falaram que as coisas mais bonitas saíram nos piores dias, bem ao estilo Rubem Alves quando disse que ostra feliz não faz pérola.

Eu tô trabalhando bastante mas nada que me faça pensar que esse bastante seja demais. Não é não, nunca foi. Acho que nada do que eu fiz foi demais, ainda que algumas coisas tenham sido difíceis e hoje me façam pensar se eu faria novamente. Não sei se o nome disso é arrependimento, mas se for, não fico muito feliz a respeito. 

Não acho que é uma coisa boa se arrepender, porque eu não sei se serve sempre como aprendizagem. Sei lá o que é aprender com erro. Porque se for não cometer mais, acho que não aprendi nada com meus erros. Posso fazer uma lista generosa das besteiras que se repetiram nos últimos tempos e sei que o saldo delas foi uma atitude da qual eu não me orgulho.

Na defensiva o tempo todo. Esperando o que não chega nunca, porque se for pra ser ideal, posso parar de tentar por aqui. Nessas horas só posso pensar que o tempo tá sendo perdido, que eu percebo muita coisa e que mudar não é nada fácil. Sobre as tristezas que já passei, cheguei a uma conclusão. Elas sedimentam no fundo de alguma coisa que eu não tenho um acesso muito amplo. Formam uma crosta que me deixa menos sensível à dor, mas também menos sensível ao outro. Não acho isso bonito.

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