a dona desse blog
é de uma teimosia absurda. além de ser psicóloga, é leitora, aspirante à escritora, filha, irmã, tia e amiga, é indecisa por natureza, não sabe fazer planos e deixa sua vida ser dominada por uma ansiedade que ela sempre achou que disfarçava bem. acha que todo dia é ideal pra questionar se suas ações estão certas, se está sendo justa consigo, se faz o que gosta (e por enquanto faz). é uma dessas pessoas que gosta da solidão da própria companhia mas não dispensa uma cervejinha com aquelas pessoas que sabem conversar, de preferência em um boteco bem boteco, porque estes servem as mais geladas.

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  quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Sobre viagens

Neste sábado, eu vou para o Rio de Janeiro. A boa desculpa é que tenho um congresso, e ainda que ele só comece na segunda feira, chego antes. Usei a mesma desculpa da primeira vez em que estive lá. Gostei de conhecer o Rio e até tenho dois lugares preferidos.

O primeiro é a Praia Vermelha. A Praia Vermelha é uma prainha. Toda a simpatia que eu tive por ela na época teve a ver com a forma como eu me sentia. Não foram dias fáceis. Algumas pessoas, quando precisam começar de novo vão para Paris. Pode reparar a quantidade de filmes em que as pessoas escolhem Paris como o destino para se esquecerem de uma dor de cotovelo. Na época eu não tinha cacife pra isso e continuo não tendo. Mas na época, eu precisava mesmo viajar um pouco, conhecer algumas pessoas diferentes, lugares que nunca estive, enfim, sabe aquela coisa de começar a contar uma história em que, de maneira alguma, vai aparecer um determinado personagem?

Pois é. Deve ser por isso que a gente viaja. Aquelas ruas não vão ser familiares, não vão ter histórias, diálogos e discussões bobas. Claro, ninguém está imune do risco de, mesmo em uma cidade nova, deparar-se com situações que parecem próximas. A gente insiste em se lembrar que alguém gostaria de conhecer aquele lugar, ou que odiaria aquele restaurante e assim por diante. Sinal de que, no fim, não há mesmo jeito de se viajar sozinho.

O meu segundo lugar preferido no Rio de Janeiro é o cemitério São João Batista. Sim, eu sou esse tanto estranha. Eu gosto de cemitérios. Aliás, se alguma vez você já caminhou por um cemitério, percorrendo túmulos, datas e epitáfios, você também deve ter se interessado por tantas histórias que se encontram enterradas. Tenho um gosto por elas, as histórias enterradas. Como ninguém vai confirmar se as que passam pela minha cabeça são as verdadeiras histórias, fico com as da minha imaginação. E, sinceramente, eu nem gostaria que ninguém as confirmasse. Minha veia dramática tem uma tendência a melhorar coisas que são por natureza mais entediantes.

Nessa primeira visita ao cemitério, junto com minha amiga querida, encontrei o túmulo de uma menina. Nele, eram muitas as velas, as flores, as plaquinhas de agradecimento. Uma criança morre e as pessoas começam a atribuir milagres a ela. Então, as pessoas faziam pedidos àquela menina. Eu fiz o meu. Já faz cinco anos desde essa viagem, e lembro bem do pedido que eu fiz. A minha amiga que estava comigo não se lembra do dela.

Mas eu compreendo bem porque eu lembro. Pelo mesmo motivo que me pareceu bonita a Praia Vermelha em um dia muito frio, cinza, chuvoso e com um vento forte demais. Se eu olhei para aquela praia, tão pequena em sua própria imensidão, é porque não foram aquelas águas turbulentas que refletiram nos meus olhos. Fui em que me vi refletida naquela fúria, naquilo tudo que só me parecia tristeza. Dificilmente a gente esquece do que pensou e das orações que fez quando esteve muito triste. A tristeza ajoelha o mais cético, a quem só resta fazer um pedido a um túmulo de uma criança que morreu cedo demais. E esperar.

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  quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Sobre o que eu queria ter dito

Hoje sentei em minha cadeira florida para escrever uma carta. Então, se você é do tipo de pessoa que se constrange com gente que não tem vergonha de expor os próprios sentimentos, melhor ir embora. Essa aqui é a minha própria praia de nudismo (medo das pesquisas que trarão visitantes para o meu blog por causa dessa frase). Como é particular, posso mesmo tirar todas as peças. Como sou um pouco exibicionista, aqui dou licença para os outros me olharem. Mas não olhar pro meu corpo. Isso não diz nada sobre mim. É olhar pro tutano dos meus ossos, pro recheio mesmo. O que existe de mais meu. Se você não aguenta, vai embora. Se, em vez disso, você imagina que esse blog pode ser lido por quem não gosta de mim, não se preocupe. Só me lêem os que estão acostumados ao fato de eu ser um pouquinho melodramática. Então, vamos à carta:

Para você:

Oi, você. Já faz um tempo desde que você me deixou aqui sem entender nada. Já faz também um tempo, ainda que menor, desde a última vez que eu dormi encolhida e pensando em tudo o que aconteceu. Ou, então, em tudo o que não aconteceu. É que eu sou dessas que fica pensando no que poderia ter sido. Deve ser por isso que eu me martirizo. Mas você não saberia disso. É que não deu tempo de você me conhecer. Não, por mais que eu tenha mostrado muito do que eu sou para você, como eu faço com todos aqueles em quem confio, não deu pra você apreender tudo. É que nunca dá, e isso a gente sabe, eu e você.

Essa noite eu tive um sonho. Não foi propriamente com você, mas você foi a primeira pessoa em quem eu pensei quando acordei. E nós dois também sabemos que isso deve ter alguma importância. Eu não vou entrar em detalhes, porque eu não acho que você se interesse por eles, mas foi um sonho que denunciou a violência que você fez comigo. Violência sim. Essa por trás de quando não são ditas as palavras.

Você não sabe, mas uma vez, há muitos anos, eu ouvi alguém me dizer com toda a sinceridade que meu problema era que eu pego as palavras que as pessoas me disseram e as tomo como um contrato. E por isso é tão dolorido quando as pessoas não me querem mais por perto. Sim, você não imagina quantas vezes diálogos se repetiram em minha cabeça. Conversas nossas, daquelas longas, daquelas que chegaram a durar muitas e muitas e horas. Não sei se foram bem conversas. Talvez tenham sido monólogos. Meus, é claro. Porque foi por causa das minhas palavras que você aprendeu a ler o que eu pensava.

Eu acho que as palavras são valiosas. Você não sabe a falta que elas me fizeram e fazem. Não é só com você que eu reclamo das palavras. Acho falta de educação não responder e-mail, mensagem, não retornar ligação. Acho que as pessoas merecem que a gente pergunte para elas o que elas desejam falar. É porque às vezes, as pessoas se arrependem do que dizem e do que fazem e, por essa razão, elas precisam das palavras para se fazer entender melhor.

Quando eu falo em violência é a essa violência que me refiro: a da falta da palavra. Ah, eu achei que você soubesse do meu apreço por elas! Falha minha, como foram tantas outras. A principal dela foi deixar de ler o que eu sentia. E sabe, não pense você que eu saio falando que você me enganou. Não, não. Acho que nesse ponto você foi muito decente. A mea culpa eu faço nessa outra parte da história. A parte que achou que aguentaria as suas reticências. Bobagem a minha, eu não sei lidar com elas. Incrivelmente, eu sei lidar com pontos finais. Mas tenho bastante dificuldade com as interrogações. Mas isso você sabe, não sabe? Acho que te contei algumas vezes o quanto me apóio nas minhas certezas.

Sabe do que eu te acuso? Eu acuso você de ter me feito acreditar que gostava de mim. Não como eu gostei de você. Não tem nada a ver. É que eu realmente acreditei que você gostasse de mim e pronto, como a gente gosta de qualquer pessoa com quem passa muito tempo e têm bastante coisa em comum. Tipo alguém que a gente admira. Que pode até ser que não dê para ser amigo, mas poxa, alguém por quem você tem consideração. É desse tipo de gostar que eu achei que você tinha por mim. E por isso foi tão dolorido quando eu percebi que me enganei.

Eu já disse antes, embora não para você, que eu sou uma péssima fazedora de lutos. Mas esse é um que eu venho adiando. Adio todas as vezes em que me nego a dizer seu nome. Você existe, e isso é fato. Na última semana fui bombardeada com provas das sua existência. Aí alguém me disse com a maior sinceridade: "será que não é um jeito de você dar uma volta nisso tudo?".

Sabe, eu acho que sim. Isso não significa que eu vou te procurar. Mas eu não vou mais evitar o confronto com seu desprezo que apenas pude sentir no silêncio. Um silêncio que feriu a alma, vou te dizer. Eu não sei se você é merecedor disso que eu tô falando. Mas como eu sei que essa carta é só para eu imaginar o que eu diria para você e que ela não chegará em suas mãos, me deixe aqui com ela.

Não vou terminar dizendo que desejo felicidades a você. Essas eu desejo a mim. De todo o coração.

Eu.

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  segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Sobre a ansiedade que me consome

Queria conhecer o sujeito que inventou que a gente precisa esperar. Porque ele, definitivamente, não tinha mais o que fazer. Sonho com um mundo justo. Um mundo em que e-mails importantes são respondidos a toque de caixa. Em que ligações perdidas são retornadas, em que mensagens importantes são respondidas.

Ao contrário do que podem imaginar os que me julgam intolerante às frustrações, eu nego até a morte. Não sou intolerante às frustrações. Mas sou sim, e isso não posso negar, intolerante à espera. Não tenho problemas com respostas negativas (quer dizer, quem não tem? Mas eu sei lidar com elas), mas tenho sérios problemas com a falta de uma resposta. Nos últimos dias ando com a minha cabeça fervendo por causa de um evento que resolvi organizar. E eu resolvi organizar por duas razões: em primeiro lugar, porque eu acho importante os alunos sentarem suas bundas acadêmicas em uma poltrona para ouvir pessoas mais experientes falar sobre sua prática; em segundo, porque é importante para o meu currículo organizar eventos.

E tudo seria maravilhoso não fosse um pequeno detalhe. Convidei algumas pessoas para participar do evento. E sabe? Se você não quer, ou não se interessa, ou não se sente capaz, ou não pode participar, enfim, custa dizer que não? Custa retornar uma ligação, um e-mail, uma mensagem dizendo que não rola? É um convite! Só isso. E se os motivos pelos quais você não aceitou o convite tem a ver comigo, a pessoa que convidou, vamos ser grandinhos e profissionais?

Olha, nessa história de organizar eventos eu aprendi que posso contar com um monte de gente que suporta a minha ansiedade e que faz as coisas a toque de caixa quando nem deveria ter que fazer. E se eu tenho que pedir as coisas pra ontem é porque eu não tenho respostas pra hoje. Respostas essas que poderiam se resumir em sim e não. Simples assim.

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  domingo, 14 de agosto de 2011
Sobre o que acontece enquanto a gente vive

Hoje, na viagem, fiquei pensando o que eu fazia ontem às 16h20. Acho que estava comprando tomilho e cebola. Um pouco antes de eu sair de casa para fazer isso, combinei com minha mãe que ela iria junto comigo ao outro supermercado.

Minha mãe estava fazendo um bolo, uma cuca de goiabada. Eu disse pra ela "oba, amanhã vai ter cuca pra eu levar pra Curitiba". Ela disse que a receita que ela tinha feito era outra, uma que minha tia havia passado, e que ela queria ver se ficava boa. Provavelmente, às 16h20, minha mãe já tinha colocado a cuca dentro do forno e estava me esperando voltar.

Às 16h20, minha irmã ainda estava na rua, provavelmente tomando a soda italiana que ela me disse que tomou com a sogra dela, e poucos minutos depois, me ligou para confirmar o jantar. Fui à casa dela para buscar uma panela e ela decidiu ir comigo para casa e me ajudar a fazer o jantar, quando chegamos, meu pai estava pra fora, sem ter como entrar e minha mãe havia saído novamente.

Comecei a arrumar os ingredientes, quando o telefone tocou. Minha irmã atendeu e voltou falando que não entendeu nada e que era para eu atender. E tudo o que eu ouvi foi uma voz muito parecida com a da minha mãe, me chamando pelo nome da minha irmã, e gritando um outro nome, o do meu primo. Alguém toma o telefone das mãos de quem eu já tinha compreendido ser minha tia e essa pessoa me avisa: o filho dela morreu, ela quis ligar, quer que vocês avisem a família. Eu desligo o telefone, aviso minha irmã e meu pai. E as notícias começam a correr e o telefone recomeça a tocar toda vez que é desligado. Quando minha mãe chegou, dei a notícia, eles foram fazer as malas e saíram. Seis horas de viagem. Até a Lola percebeu que alguma coisa tinha acontecido, foi se esconder embaixo da estante.

Eu e meu primo dividíamos, além do sangue, algumas memórias. Lembranças infantis que não cresceram e nem se multiplicaram junto com a gente. Nos encontrávamos mais quando crianças, uma vez por ano, na praia. Nunca tivemos muita coisa em comum, além de nossas mães serem irmãs. Elas sim, muito próximas. Não posso dizer que vou sentir falta dele. Mas posso dizer que fico triste pela minha tia. Esse acontecimento, dizem, faz uma marca profunda demais nas pessoas. Minha mãe vai sentir falta de quem era e de como era a irmã dela.

Em poucos minutos, você faz parte da história da manchete que narra um acidente sem muitos detalhes. Em poucos minutos você entende que enquanto a sua vida acontece, a muitos quilômetros de distância, a vida de alguém que nasceu fazendo parte da sua desprendeu-se. Muito provavelmente enquanto eu pesava as cebolas, enquanto minha mãe fazia um bolo, que ainda morno foi embalado para ser servido no velório, enquanto minha irmã tomava uma soda italiana e enquanto minha tia atendia na loja dela. E foi uma cliente que falou comigo ao telefone e pediu para eu dar a notícia.

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  segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Sobre chover no molhado

Pode ser que seja chover no molhado. Já escrevi aqui sobre o que eu vou falar hoje, mas tenho uma boa razão. É que tenho por regra escrever sobre o que me esbofeteia. Eu sei que parece confuso, mas é que algumas situações que a gente vive, e mesmo aquelas que a gente apenas testemunha, têm esse poder de nos esmurrar. Sei que peco em meus textos pela quantidade de metáforas, mas é que não sei falar diferente. Então, quando digo que algumas situações e palavras me esbofeteiam é porque elas me deixam completamente sem condições de ter nenhuma reação, exatamente como se eu tivesse sido literalmente esbofeteada.

Isso é uma grande ironia se eu pensar que o título do meu blog, inspirado em uma música que adoro, fala sobre uma moça que sabe ver as coisas pelo ângulo mais bonito. Muitas vezes, as palavras que me trouxeram até aqui não têm nada de belas. Inúmeras as situações bem feias que serviram de inspiração. Por quanto tempo escrevi sobre tristezas? Quantos foram os textos sobre desesperança? Sobre solidão nem se fala. Ainda assim, tenho pra mim, bem no meu íntimo, justamente que escrever essas palavras me dão um pouco de fôlego. Acho que escrever sobre o que me incomoda me permite, depois de ver o texto escrito, ter alguma possibilidade de ver aquelas palavras que batem, que derrubam, por uma outra visão.

Gosto de pensar em mim como a moça da música, ainda que nem tudo sobre o que diz a letra me traduz. Eu não sei tocar piano e violão. Cortar cabelo tampouco. Nunca fui à Índia nem ao Japão, não ando de bicicleta dentro de casa, aliás, quantos anos faz mesmo que sequer ando de bicicleta? Enfim, são vários os trechos da música que não dizem nada sobre mim, quem me conhece sabe. Mas têm alguns, bem específicos que eu acho que dizem sim. Eu, por exemplo, despreocupo-me e penso no essencial. Vou ao teatro, mas prefiro cinema. Tenho lençóis (e adoro lençóis) e tenho irmãs. Adoro eletrodomésticos, aliás, sou fascinada por eles. Procuro o amor, mas não sei se quero ser mãe. Mas de tudo o que eu mais me identifico é com a parte que diz que a moça aprende e continua aprendiz.

Se eu falo tudo isso sobre o porquê do título do meu blog, é porque nos últimos tempos eu venho me incomodando muito com algumas coisas específicas. E eu acho que esse incômodo vem crescendo à medida que continuo aprendendo muito, que continuo sendo aprendiz. Aliás, acho que só esse estado de espírito, o de aprendiz, pode permitir que alguém realmente se preocupe com o essencial. Eu só posso crer que algumas pessoas não têm bons motivos com que se preocupar em suas vidas, se tudo o que elas fazem é pensar em intolerância e em ódio. Ou ainda, se elas realmente acreditam que suas opiniões reacionárias podem ser compartilhadas sem maiores consequências. E o pior das consequências do compartilhamento de opiniões aleatórias é que elas atingem alguém. E podem atingir tanto de uma maneira receptiva como com muita tristeza.

Faço parte da segunda categoria de pessoas e, por isso, recebo alguns poscionamentos com tristeza. Mesmo que ninguém leia esse texto grande demais que eu decidi escrever, eu adianto que estou escrevendo para que, no mínimo, daqui a uns anos, eu lembre desses tempos e da tristeza que senti. Não porque eu gosto de me agarrar à tristeza, mas porque eu sou uma adepta do não esquecimento. O não esquecimento não significa guardar mágoas, mas indica que você, esse ser racional provido de memória, não vai se deixar levar por discursos que se repetem a esmo, sem muito ou nenhum discernimento. Discursos de ódio, discursos de agressão travestidos de constitucionalidade, como se isso servisse de indicativo de apoio.

Hoje, quando eu lia a coluna da Eliane Brum, em que ela fala sobre o dia do Orgulho Hétero, deparei com uma frase em que ela cita um professor de Direito Constitucional que, sobre a tal votação, reafirma que, ainda que a lei seja constitucional, ela vai contra a paz e indica uma atitude beligerante. E sabem, eu acho que de atitudes beligerantes a gente não precisa mais. Eu vejo e ouço pessoas que em tese deveriam ter um papel social relevante, não pela profissão que exercem, mas pelo fato de terem se formado às custas de uma ideologia que faz com que elas e os seus continuem numa posição superior, uma situação de agentes de opressão, de desigualdade.

O que a gente precisa começar a admitir é que a nossa formação, nós que nos formamos em períodos anteriores ao que a gente vive em que existem benefícios como cotas e financiamentos àqueles que durante anos sustentaram a base de uma pirâmide na qual nós, se não estávamos no topo, estávamos em uma situação bem confortável, nós que nos formamos em universidades públicas ou privadas, nós nos formamos sim às custas do trabalho de milhões de homens e mulheres que lavaram nossas privadas. E se eu estiver falando com reacionários que vão me dizer que essas pessoas não pagaram os impostos dedicados a bancar os professores, as universidades, eu digo que quem ganha decentemente paga imposto.

Se eu comecei a falar em dia do orgulho hétero e agora falo disso é porque eu não vejo os dois temas com muita diferença. Empresto da Eliane Brum as palavras, que são bem melhores que as minhas: "Datas como o 'Dia do Orgulho Gay' ou o 'Dia da Mulher' ou o 'Dia da Consciência Negra' fazem parte da luta pelos direitos básicos de parcelas da população que historicamente sofreram - e ainda sofrem - as consequências da discriminação e do preconceito por aquilo que são".

Então, diante dessa frase tão conclusiva e que ao mesmo tempo suscita em mim tantos outros pensamentos em cadeia, eu só posso me sentir esbofeteada quando alguém tenta comparar os meus direitos, garantidos desde que botaram essa pele branca e estes olhos azuis em mim, deste que eu sou heterossexual, desde que eu tenho casa, carro, televisão e um computador onde eu descubro o ângulo mais feio que pode haver no ser humano.

E sabe o que me dói, mas dói fundo? É que algumas das pessoas que se posicionam a partir de tanto ódio contra aqueles que são homossexuais, não compreendem que não é por escolha mas por condição. Não compreendem que se escolha fosse, a mais fácil não seria essa. Tampouco compreendem que, ainda que não seja escolha, não é doença, como heterossexualidade não é saúde. Eu, bem como a Eliane evitou fazer, também não vou dizer que as pessoas com condutas homofóbicas estão no armário. Mas eu vou dizer que tanto ódio assim só pode ser medo de um ódio maior que habita dentro de si.

Nessas situações de intolerância aqueles que eu vejo darem as mãos são os colegas mais impensados. Vejo radicais ateus dando a mão a religiosos cuja fé deveria unir em vez de separar. Vejo o ódio gratuito misturado a um ódio que em tese está balizado pela figura de um deus. Vejo argumentos falhos, comparações indevidas de gente lá do alto da zona de conforto. Vejo, e isso vejo muito, gente formada em Psicologia, o que me envergonha, esquecendo que as pessoas acreditam nas bobagens que os psicólogos falam e por isso que aquilo que a gente fala e como a gente se posiciona precisa ser alvo de muito cuidado.

All you need is love.

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  segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Sobre canja

Canja. Existem momentos que o que você pode oferecer é isso. O bom da canja é que ela serve para duas coisas: primeiro para mostrar que você está ali, cuidando simbolicamente de quem precisa, e depois porque essa dieta de cigarros, lágrimas e angústia realmente preocupa. Não pode fazer bem, não faz. Excetuando os cigarros, que nunca fumei, sei bem dos males que os dois outros ingredientes causam. Males necessários, é preciso frisar, aqueles que vêm para o bem, como pontua o clichê.

Nunca é fácil ser deixado ali sem o entender o que aconteceu. E disso de ficar sem entender o que aconteceu entendo bem. Mas sempre fico surpresa quando percebo que o que a gente fala nessas situações é pouco, perto do que a gente pensa. Você já percebeu que quando você se vê engolido por um abandono, pela desilusão, pela rejeição, além de imerso em um profundo ódio de si mesmo, você vê praticamente inundado por pensamentos que não te abandonam nem no sono? Aliás, eu diria que especialmente no sono que eles nos atacam.

Atacam sim. A palavra é boa, porque é quase mortal. Ou talvez esse quase seja desnecessário. É sempre mortal. Independente do que seja, há algo que morre, e o ruim é que não costuma ser o sentimento pelo outro, que continua ali, te fazendo lembrar das coisas boas. Eu sempre me compadeço. Porque lembro, porque sei. É difícil e na hora só os pensamentos ruins existem. Aqueles que nos lembram as razões pelas quais os outros podem nos odiar.

Apesar de ser uma péssima fazedora de lutos, sou boa fazedora de metáforas. Sem perceber, me vi fazendo mais uma. É que no meio dessa conversa em que a outra pessoa escuta apenas fragmentos das palavras que a gente usa para consolar, lembrei de uma coisa muito difícil de passar. Porque vou te contar uma coisa: se terminar um namoro é difícil, ser preterida por outra pessoa é excruciante. E olha que essa deve ser a primeira vez que eu uso essa palavra.

Aí eu me vi falando que essa situação qualifica o crime. Como um homicídio doloso, que pode ser qualificado. E que no fim de um relacionamento, há motivos que tornam o ato do rompimento qualificado. E que ser preterida é um deles. Outro é se o motivo for torpe, e um terceiro, os meios utilizados pelo agente para realizar seu crime. É que, para alguém, alguma coisa vai morrer. Há algo que foi sim assassinado. E é em cima desse cadáver inerte, dessa coisa disforme que a gente chora, é essa coisa que era bonita e que gente se recusa a enterrar.

Isso que escrevi agora me fez lembrar de um sonho que eu tive ainda outro dia. Não lembro de muita coisa antes e nem depois, mas lembro de uma figura sem forma definida, sobre uma cama, vestida de preto, bastante machucada, desfigurada por conta do que parecia ser um ataque por tubarões ou qualquer outra coisa que morda. E tinha alguém ao meu lado dizendo: "Não tem o que fazer, deixa aí, porque logo vai morrer". Eu obedeci e fui fazer outra coisa. Mas voltei. E ao voltar, percebi que, muito levemente, aquele corpo sangrando e desfigurado pulsava. Eu notei que, mesmo tendo sido esquecido em cima daquela cama, entregue a machucados bastante horríveis, que alterariam sua forma para sempre, aquela coisa ainda vivia, e tudo que ela precisava era de alguém que tomasse conta.

Eu acho que aquela coisa era eu. E no meu sonho, a única pessoa capaz de olhar e dizer que tinha salvação, também era eu. E quando a gente termina um relacionamento, a dor que invade, que engole, que atormenta é a de sentir incapaz de cuidar do mesmo corpo pelo qual se vela. Em alguns funerais, serve-se canja àqueles que permanecem ao lado do corpo durante toda a madrugada. Ontem eu fiz uma canja e ajudei a velar durante várias horas. Era só isso que eu poderia fazer. E foi o que eu fiz.

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