a dona desse blog
é de uma teimosia absurda. além de ser psicóloga, é leitora, aspirante à escritora, filha, irmã, tia e amiga, é indecisa por natureza, não sabe fazer planos e deixa sua vida ser dominada por uma ansiedade que ela sempre achou que disfarçava bem. acha que todo dia é ideal pra questionar se suas ações estão certas, se está sendo justa consigo, se faz o que gosta (e por enquanto faz). é uma dessas pessoas que gosta da solidão da própria companhia mas não dispensa uma cervejinha com aquelas pessoas que sabem conversar, de preferência em um boteco bem boteco, porque estes servem as mais geladas.

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  quarta-feira, 30 de março de 2011
Sobre o começo do dia

Hoje acordei bem cedo. É que estou tentando educar meu ritmo de sono que sempre foi bem mal educado. Minha mãe nunca foi daquelas cheias de imposições como hora pra dormir, de tomar banho, de fazer tarefa, e a gente foi se criando. Com 11 anos eu já tinha descoberto a paz que é estudar durante a madrugada e o quanto a cafeína ajuda nisso.

Digressões à parte sobre a minha educação que, contraditoriamente, foi muito e pouco convencional ao mesmo tempo, desde que comecei a trabalhar, aprendi o que é dormir direito, ter sono às onze da noite, acordar cedinho, não poder dormir depois do almoço. E desde que comecei a receber bolsa do mestrado e parei de trabalhar, voltei ao ritmo de antigamente. O resultado é que tenho dormido muito mal e isso tem prejudicado a minha vontade de estudar, de escrever, enfim, de me dedicar ao mestrado, que é o objetivo da bolsa, afinal de contas.

Ontem eu senti sono às 22h. Tentei enrolar até 23h, mas não consegui. Eu fui dormir e me forcei a dormir a noite toda. É que pessoas que não tem ritmo educado de sono tem o hábito de se contentarem com sono em parcelas. Ou seja, durmo quatro horas aqui, duas horas ali. NOT GOOD. Durante a madrugada acordei umas duas vezes, meio sonolenta ainda, levantei rapidinho para ir ao banheiro fechei os olhos e recuperei o sonho (que já esqueci, lógico) e consegui dormir até às 7h15.

E como é gostoso o sono da manhã, né? Tanto, que fechei os olhos, depois de ter dormido por quase nove horas, e dormi até às 8h. Me forcei a tomar café-da-manhã, coisa que também não combina comigo. Mas tomei, tentando ter uma rotina mais saudável porque o ritmo tá puxado e se não faço assim vou sentindo o resultado na gastrite, na angústia, enfim.

Aí, depois de ouvir a Ana Maria Braga falar algumas coisas sobre a Maria ter sido campeã do BBB, abri a janela, vi que tava chovendinho e mais frio que ontem. Pensei que foi bom ter trazido de Guarapuava as minhas galochas, porque hoje o dia promete e eu ando a pé. Mas pensei também que em alguns desses dias, quando olho pra fora, sinto conforto. Dias cinzentos podem ser reconfortantes. Mas nem sempre. Ou quase nunca? Enfim, hoje a sensação foi de espelho. Olhei pra fora e me vi. O dia será longo.

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  terça-feira, 29 de março de 2011
Sobre o impossível

Ontem eu tive uma crise de angústia que pela primeira vez na vida me fez desejar alguma coisa que tirasse aquilo de mim na hora, e olha que há uns tempos aconteceram algumas coisas que me deixaram angustiada por meses. Mas eram doses diárias e constantes de angústia, me permitiam administrar, pensar em outras coisas, letting go.

Ontem eu tive uma crise de angústia que eu demorei pra reconhecer pelo tamanho que ela era. Deitei na minha cama e alguma coisa me incomodava MUITO. A ponto de não conseguir fazer uma coisa simples que eu tinha planejado antes de dormir. Acho que essa crise teve relação com o último post e com outras coisas que também têm me incomodado desde o acidente. Essa incapacidade de resolver tudo, de lidar com tudo.

E tudo não tem sido muita coisa, tudo tem sido só as coisas que eu mais gosto de fazer. Tô bem satisfeita com minhas últimas decisões e tem sido incrivelmente pouco cansativo dar conta delas. Tanto é que eu nem sinto que tenho viajado semanalmente mais uma vez. Talvez meu corpo sim, mas eu insisto que não tem a ver com isso, mas tem a ver com as coisas do acidente que continuam pendentes e continuarão por um bom tempo. E como coisas pendentes me incomodam. Mas é com o impossível que estamos lidando aqui.

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  domingo, 27 de março de 2011
Queixumes, reclamações e afins

Não me considero uma pessoa reclamona. Pelo contrário, acho que tenho tido bastante sorte até aqui. Demorei poucos meses para conseguir o primeiro emprego depois que me formei, depois veio outro emprego, veio o mestrado, outro emprego e enfim, à medida que a vida foi me acontecendo, ela também foi funcionando. Sei bem que, se meus planos não derem certo, um emprego que me garanta minhas contas pagas, eu vou ter, então, a reclamação não tem a ver com isso.

Tem a ver com uma ansiedade em relação justamente aos planos. Lembra daquela época em que angústia era escolher um curso pro vestibular? Queria aquela ansiedade de volta pra mim. Não porque eu tenha errado na escolha. Não, não. Quer dizer, primeiro eu errei, depois voltei atrás e acertei o passo, nunca duvidei disso. Sou psicóloga e isso é fato consumado. Só que eu sou também professora e isso é fato consumado da mesma maneira. E essa última parte é que me tem provocado as mais diversas angústias, que eu tô chamando de queixumes e reclamações.

Conversando com uma amiga que se formou praticamente ontem, eu percebo que essa angústia não é só minha. Muita gente mesmo ainda tem chão pela frente antes de encontrar um lugar e nele assentar. Outro dia, numa outra conversa, com outra amiga, ela também perguntava (e me perguntava) por que algumas pessoas que ela conhece parecem estar tão satisfeitas. Por que parece que é só com ela esse negócio de pensar "e agora?".

Minha amiga recém-formada tá vivendo a ansiedade de quem acabou de sair da faculdade e precisa decidir o que ela vai querer fazer com a profissão dela. Escolha muito da difícil, preciso dizer, e tem gente que passa a vida se perguntando se não escolheu errado. Minha outra amiga volta e meia se cobra uma posição mais ativa para tentar responder ao "e agora?".

E eu fico aqui pensando que eu sei exatamente o que eu quero. Sei bem que sou professora e que sinto falta quando não estou professora. Sei bem que quero fazer o doutorado logo depois que terminar o mestrado. Só que a ansiedade que isso me provoca tem me tirado umas boas noites de sono. É que eu sempre quis as coisas pra ontem. É que eu sempre quero resolver logo, riscar da lista, da agenda. Coisa de gente desequilibrada, eu sei.

No dia da qualificação, a professora querida que veio pra minha banca, quando eu disse que queria fazer doutorado logo em seguida, disse que é bom. Que eu termino o mestrado e tenho meses pra me preparar pra seleção. Mal sabia ela que eu achava que dava pra fazer essa seleção esse ano ainda. E nesse sábado em que essa angústia não me permite dormir, descobri que só se eu fosse louca de pensar em tentar. Quer dizer, isso implicaria voltar pro francês, fazer um anteprojeto antes de terminar a dissertação, publicar como se não houvesse amanhã, enfim...

E há amanhã. E as universidades todas continuarão no mesmo lugar. E editais de seleção abrirão a cada ano e concursos para professores também. Então, vamos fazer o favor de sossegar. Esse é o ano pra terminar o mestrado, para participar de congressos, escrever artigos e melhorar o currículo. Ano que vem é outro ano. Vamos esperar.

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  terça-feira, 22 de março de 2011
Sobre o segundo dia de outono

Calma, não é uma série que vai se estender por todo o outono. É que ontem foi um dia importante porque era a véspera da minha qualificação. Toda ansiedade, expectativas envolvidas. Então, dá pra entender porque hoje é mais importante ainda. Nunca havia passado por coisa parecida. Talvez o mais próximo tenha sido a apresentação do artigo da pós, mas infinitamente menos importante, até pelo tanto que eu me dediquei à pós e ao artigo, em relação ao que eu me dediquei ao mestrado.

Deixa eu explicar: pra poder fazer mestrado eu mudei de vida. Não mudei de cidade simplesmente. Mudei de vida. E esse foi um lapso que apareceu várias vezes na minha escrita nos primeiros meses do mestrado. Em vez de escrever a palavra 'cidade', eu escrevia 'vida' e pra mim esse tropeço fala muito. Enfim, não vou falar de cada uma das coisas que ficaram em suspenso quando decidi fazer o mestrado. Até porque, eu as vejo mais como aquela parte de uma receita meio complicada, uma receita com várias partes e que você tem que seguir a seguinte instrução: reserve. Quando falam para você reservar você já sabe, vai precisar depois, vai fazer a diferença no final.

Hoje eu ouvi muitas coisas bonitas. Hoje eu ouvi com atenção aquilo que pessoas mais experientes do que eu me sugeriam. Eu que tenho tanta dificuldade em ouvir críticas negativas, tive sorte, não ouvi nenhuma. Ouvi elogios e ouvi ressalvas importantes. Ouvi conselhos. Coisas do tipo que servem para mostrar que se você puder ouvir não vai se desesperar diante de um mundo de coisas que não pode abraçar. Pesquisar é isso, me disse a convidada de Minas, é abrir mão, porque senão, o salto que a gente tem que dar para alcançar um objetivo fica muito grande, fica forçado, fica como uma costura de um saco de lona, dá pra notar.

Ouvi que meu trabalho vai ser uma grande contribuição pra psicanálise. Ouvi que isso que eu fiz não tem sido feito. Que isso que eu me proponho a fazer é um diferencial que não se vê em nenhuma pesquisa de psicanálise dita aplicada. Eu sei que é a opinião de duas pessoas. Só duas num vasto mundo. Mas ouvir isso me faz pensar coisas que pra mim sempre foram difíceis: então, quer dizer que no fim das contas eu consegui pensar de uma forma singular num tema tão pão-com-ovo? Ah, tão de brincadeira, né?

Um dos meus problemas deve ser que eu nunca acredito. Não acreditava que passaria no mestrado, por exemplo. Não acreditava que o que eu tinha escrito tinha grande valor. Não acreditava sequer que estava bem escrito. E não se trata de falsa modéstia. Ontem, relendo, pensei: tá medíocre. Essa foi a palavra que me veio à mente. Aí, hoje cedo, eu recebi um e-mail do professor que mandou a qualificação por relatório. No texto do e-mail ela dizia assim: "Segue meu parecer sobre o belo trabalho de Angela". Acontece que hoje de manhã, eu não li a palavra "belo". Li só agora.

O dia começou tão feio, tão esquisito. Aquela garoa absurda que você não sabe se abre o guarda-chuva ou não, porque ela vem de todos os lados. Tava tão parecido como eu me sentia. Incômoda. Esperando a professora que veio de Belo Horizonte pra minha banca, com uma plaquinha em mãos eu pensava: "Será que vou simpatizar com ela?". Porque se eu não simpatizar, vai ser tão difícil ouvir o que ela tem a dizer. Eu sou muito desse jeito. Enfim, não tem muito como não simpatizar com uma desavisada que vem para Curitiba de shorts e bota, no maior estilo editorial de moda. Uma fofa que fala "ocê" e que tem o sotaque mais gostoso de ouvir. Começou a me perguntar ali mesmo coisas sobre a dissertação, começou a dizer coisas que tinha pensado. Sem protocolo, sem formalidade. Entendi logo que ela tinha gostado. E ela me disse no caminho entre o aeroporto e a universidade: Você tem uma escrita muito madura.

E depois ela disse que eu interpreto Freud com elegância, com beleza e com delicadeza. E isso foi tão, mas tão bonito de se ouvir, sabe? Porque eu realmente tenho cuidado com Freud. Um cuidado de quem gosta muito, respeita muito, de quem tem muito medo de deturpar Freud. E ela captou esse meu cuidado. E me deu contribuições tão valiosas que eu tinha vontade de abraçar ela forte e agradecer muito mais do que agradeci. Porque agradeci e muito. Agradeço aos dois, que entenderam exatamente o ponto fraco do meu texto mas o entenderam não como um ponto negativo, mas como uma promessa. Uma promessa do que a minha dissertação pode vir a ser.

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  segunda-feira, 21 de março de 2011
Sobre o primeiro de outono

Começou às 11h que foi a hora que eu consegui sair da cama. Digo consegui porque até às 4h, talvez até mais tarde, estava eu dando voltas e mais voltas de um lado para o outro da minha cama. Eu tinha planejado levantar cedo, lavar roupa, sair para pagar contas, cancelar meu alvará de autonômo que não está me servindo pra nada. Aí eu ia almoçar na casa de uma amiga, também conhecida como a mãe do Francisco e entregar um presentinho pra ele.

De manhã, só consegui cumprir a última parte. Não sabia o que vestir. Como se vestir quando você olha pela janela e vê aquele céu curitibano? Aquele céu que indica que à noite vai esfriar e que você, que tinha planos de não voltar pra casa porque vai emendar o dia com os compromissos da noite, pode ficar com calor ou com frio. Enfim, coloquei uma blusa de fio por cima de uma camisa, um casaco meia-estação (estamos nela, não?) e uma echarpe.

Chegando na casa da minha amiga lembro que não entreguei o relatório da qualificação par a suplente da banca e que se alguma merda acontecer amanhã, não vai ser nada bonito. Merdas que podem acontecer quando pensamos em aeroportos brasileiros e tempo que pode estar ruim. No fim, tive que voltar pra casa para pegar o pen-drive, brilhantemente esquecido em cima da mesa. Pen-drives servem para ficar na bolsa. Quando você usa em casa deve guardar imediatamente na bolsa, é quando ele não está lá que você mais precisa dele.

Resolvi voltar pra casa a pé, só pra me castigar, paguei as contas, voltei pra casa e saí de novo. Deu tempo de arrumar a cama que tava fazia uma semana sem sentir o peso da colcha. O tempo não me animou a lavar a roupa. Imprimir, encadernar, deixar na universidade. Depois de tudo isso, foi possível tentar cancelar o alvará. Tentar, porque não levei minha carteirinha do conselho para xerocar. Fail.

Como havia combinado de encontrar dois amigos no Estação e eu estava na Rui Barbosa, fui andando. No caminho parei na loja de tecidos para ver as novidades e não sei se a Polly viu, mas tem tecidos lindos de corujas. Não comprei nada e cheguei cedo demais no shopping. Reli a dissertação e senti vergonha, não estou achando nada bom. Enfim, agora já foi.

Encontrei os amigos, fomos para a associação. Estudamos um texto do Lacan que falaram que ia ser fácil. Oi? Não foi. Peguei carona até a Rui Barbosa. Quando saí do carro, senti aquela rajada de vento com chuva fina que castiga. No ônibus, parasitas sociais escutavam música no celular sem fone de ouvido. Olhei feio. Fui ignorada. Desci no ponto que é mais longe, mas menos perigoso, comprei pão. Voltei pra casa e vi que a secretária do mestrado pediu documentos preenchidos com firma reconhecida pra amanhã. Pra AMANHÃ, que é o dia da minha qualificação.

Parte boa: está frio e o tempo está chuvoso. Vou estar charmosa usando um trench coat.

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  domingo, 20 de março de 2011
Sobre falta de tempo, sobre falta de assunto

Tem faltado tempo e tem faltado assunto, mas mais do que tudo tem faltado disposição de pensar em escrever sobre as coisas que realmente têm sido importantes e que realmente têm me incomodado e que realmente têm me tirado algumas noites de sono.

Só que eu tenho um defeito de não conseguir falar diretamente sobre meus problemas quando eu não sei lidar com eles. Além de tudo, eu acho que não tem muito propósito em deixar as coisas registradas literalmente aqui, olha o tamanho da exposição.

Mas enfim, tudo isso é pra dizer que faz uns dois meses que tenho enfrentado um problema, desses que me deixam preocupada sempre que lembro, mas que preciso esquecer para conseguir fazer essas coisas da vida, tipo trabalhar, estudar e dormir. E de todas essas coisas, a que mais tem sido prejudicada é a parte de dormir, porque talvez eu imagine que se passar horas ruminando um assunto que não me cabe resolver, ele, sei lá, termine no dia seguinte, magicamente se acabe.

Não tem acontecido.

Aí, como se não bastasse eu descobri (ok, não descobri recentemente, mas fui lembrada esses dias atrás), que não importa o quanto você esteja disposta a fazer as coisas da maneira mais certa possível, algumas pessoas insistem em cobrar o que você não pode, não deve e não está disposta a dar.

Essa frase se aplica a muitas coisas nessa vida. A única parte boa é que depois que passa a indignação resultante de uma eventual cobrança indevida, o resto é que você deixa de se importar tanto. Exageradamente eu me coloco no lugar das outras pessoas, só que é um baita alívio quando elas te contam que não fazem o mesmo e daí eu descubro que, opa, não preciso mais gastar energia.

Outro dia, a Flávia disse sobre gentileza, sobre educação, boas maneiras, chamar os outros pelo nome e o quanto essas coisinhas tão pequenas fazem tanta diferença no modo que a gente está se sentindo. Eu tentei postar um comentário, mas não consegui, mas basicamente dizia que eu concordo com tudo o que ela disse e acho que as pessoas deveriam ser lembradas constantemente quando elas são mal-educadas. Assim, alguém tem que contar pra elas que existem boas maneiras, palavras mágicas, coisas que deixam a convivência social tão mais bonita.

Então, alô, você, que não tem consideração pelos outros, não no sentido de gostar, mas sabe, de tratar como gente? Alô, você que nasceu e vai morrer deselegante, ainda que por fora a capa engane bem, deixa eu te contar, tem jeito de transformar esses modos chucros em gentileza. E sabe, isso começa não quando a gente gosta, ama, admira uma determinada pessoa, mas quando a gente a respeita e a trata com respeito só porque ela existe.

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  quinta-feira, 10 de março de 2011
Sobre parar, olhar e escutar.

Pare, olhe, escute, tá escrito na placa da linha do trem. Quase tudo o que eu faço está para o lado de cá da linha: padaria, manicure, ponto do ônibus que pego sempre. Mas, de vez em quando, eu preciso ir para o lado de lá, porque é onde estão o cartório, a quitanda, o técnico da máquina de lavar. Morar onde eu moro implica em se acostumar ao barulho do trem e à inconveniência de, às vezes, ter que esperá-lo passar para fazer alguma dessas coisas.

Acontece muito de me perguntarem como é conviver com o barulho do trem. Respondo, que da minha casa o barulho não é tão alto, ele existe, mas não me atrapalha. Não me acorda, nem me impede de continuar fazendo o que eu estou fazendo. Ele simplesmente está ali. Na vida não é muito diferente, porque é justamente quando as coisas não funcionam bem que a gente precisa parar, olhar e escutar, igualzinho diz na placa, se não, o trem passa por cima.

Ontem eu não conseguia dormir, pensando em um monte de coisas que não posso resolver agora, que não posso sequer resolver sozinha e que afetam outras pessoas de um jeito que eu não gostaria que afetassem nunca. Fiquei angustiada e comecei a desejar que fosse possível voltar atrás, como se isso me redimisse de uma culpa que é quase tão antiga quanto eu. Descobri, tem algum tempo, que quando me sinto assim eu não quero falar, eu não quero contar, não quero passar relatos detalhados, esses que eu sou especialista em dar, cheios de diálogos, descrições e parênteses. Não, nessas situações, eu quero ser deixada quieta até que as coisas se resolvam dentro de mim. Já aconteceu antes e tá acontecendo agora. É o meu momento de parar, olhar e escutar.

Parar: com a correria e a ansiedade porque nem toda situação se resolve no capricho da minha pressa. Ora, eu já sei que quando não parei as consequências foram duras e prolongadas, ou seja, não dá pra fugir de si mesmo. Olhar: pra dentro, para os próprios tropeços e procurar neles algumas coisas que façam com que eles tenham relação entre si. Porque, normalmente, eles têm. Normalmente essa relação que existe entre eles é que faz com que os caminhos que a gente toma em situações diferentes sejam tão próximos. Escutar: o barulho que a situação faz dentro da gente, tentar ouvir porque a existência desse trem causa tanta dor, enfim, escutar quais são os jeitos que a angústia usa pra falar.

Um trem é uma coisa grande, pesada e extremamente barulhenta. Não dá pra ignorar que ele tá ali, chegando e fazendo você parar com alguma coisa que estava fazendo e esperar. A gente precisa se dar esse "luxo" de esperá-lo passar. E sabe, esperá-lo é só respeitar um tempo. Não é ignorar a existência dele passivamente, mas entender que, de vez em quando, as coisas não acontecem do jeito como você imaginava e você precisa lidar com isso. Quer dizer, eu preciso lidar com isso, porque é sobre mim e sobre o meu trem que eu tô falando.

É engraçado que eu notei que nessas situações que um trem passa pela minha vida, minha reação automática nunca é esperar. Pelo contrário, eu acabo optando por fazer uma volta muito grande para chegar até onde eu precisava. O problema é que a linha do trem cruza a cidade. E mesmo andando pra muito longe, lá na frente, eu vou encontrar o trem de novo e ele vai zombar de mim, que não esperei pacientemente lá atrás, não parei, nem olhei e nem escutei. Simplesmente saí andando e tomando caminhos alternativos só pra fazer de conta que eu não preciso mais daquilo que tá do outro lado da linha.

Hoje, eu conversava com uma amiga sobre um desses meus desvios e quando ela me perguntou por que eu ia fazer isso, eu não tinha boas razões. Eu tinha desculpas. Então, eu resolvi parar. Primeiro passo. Daqui pra frente, a tentativa vai ser de olhar e escutar.

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