a dona desse blog
é de uma teimosia absurda. além de ser psicóloga, é leitora, aspirante à escritora, filha, irmã, tia e amiga, é indecisa por natureza, não sabe fazer planos e deixa sua vida ser dominada por uma ansiedade que ela sempre achou que disfarçava bem. acha que todo dia é ideal pra questionar se suas ações estão certas, se está sendo justa consigo, se faz o que gosta (e por enquanto faz). é uma dessas pessoas que gosta da solidão da própria companhia mas não dispensa uma cervejinha com aquelas pessoas que sabem conversar, de preferência em um boteco bem boteco, porque estes servem as mais geladas.

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  quinta-feira, 30 de junho de 2011
Sobre bobagens que são ditas por aí

Pensei muito antes de escrever esse texto e fiquei seriamente em dúvida: será que vale a pena eu perder meu tempo para rebater ignorância? Será que vale a pena desconstruir argumentos falidos, uma vez que essa desconstrução só vai resvalar nas pessoas que pensam que compartilhar links absurdos diz respeito à liberdade de expressão? Será que meus argumentos servem para demover das bobagens que uma pessoa resolveu colocar em um vídeo? Sinceramente, acho que não.

Fiquei pensando que isso de comungar com a exclusão que tanta gente sofre, com a discriminação, com o preconceito pode ter a ver com medo. Medo sim. Do que exatamente eu só consigo pensar que seja da própria raiva. Deve ser amedrontador sentir tanto ódio.

A pessoa responsável pelo vídeo diz que se 20 mil pessoas assistirem, vai fazer outro. Acho que ele chutou baixo. Tenho certeza que muito mais gente vai assistir. Só no meu facebook três da minha lista já compartilharam o link, e apesar de eu não ser boa de contas, essa proporção é um tantinho assustadora. E aí eu decidi escrever sobre alguns dos muitos absurdos que eu ouvi nesse vídeo. Vamos a eles:

1. "O congresso brasileiro está perdendo o senso de moralidade": bom, eu começaria com a definição de moral. Moral tem a ver com costumes, né? É uma palavra carregada de valor. Quando eu digo que o congresso brasileiro está perdendo o senso de moralidade eu estou dizendo que ele está indo contra um conjunto de valores socialmente assumido como aqueles que devemos seguir, nos adequar, enfim. Me preocupo bastante com esse termo "adequar". Me preocupo com os sacrifícios que são impostos aí, sacrifícios que, em larga escala, não atingem apenas indivíduos, mas grupos inteiros. Prefiro pensar em ética à moral. A ética diz respeito a algo que orienta os atos humanos de uma maneira muito mais ampla. E nem toda ética é moral. Se a moral a qual os congressistas estão perdendo é essa que trata com diferença uma parcela da população, acho que renovar (e não perder) o senso de moralidade é uma ideia muito boa.

2. "Os congressistas brasileiros chegaram também ao consenso de que educação sexual e distribuição de camisinhas conduziu a promiscuidade e iniciação sexual precoce": para mim os congressistas brasileiros não são nenhuma autoridade no assunto, e dependendo da bancada a que eles pertençam, menos ainda. Mas sabe o que eu achei engraçado? Confundir educação com promiscuidade; proteção com uma vida sexual precoce. Sério que você pensa que as pessoas transam porque elas têm camisinha? Sério que você pensa que as crianças se interessam por sexo porque falam com elas sobre sexo? De verdade, só por causa dessa primeira argumentação eu parei de ver o vídeo pela primeira vez.

3. "As crianças não tem caráter formado": caráter...o que seria caráter? Será que caráter tem a ver com o tipo de pessoa que eu vou me tornar? E vai que eu me torno uma pessoa que acha que todos têm os mesmo direitos? Vai que eu começo a achar errado discriminar alguém por causa da orientação sexual? Vai que eu começo a contestar a opinião dos meus pais? Isso é necessariamente negativo? Porque claro que a comparação foi o que fizeram com as crianças durante o nazismo. Sim a questão da luta contra a homofobia tem objetivos parecidos (IRONIA, POR FAVOR), porque o sonho dos homossexuais é exterminar os heterossexuais.

4. "Alimentar a crescente massa midiática": eliminar a homofobia é um alimento para a mídia e uma forma de conseguir votos dessa grande massa, dessa maioria (IRONIA NOVAMENTE), que são os homossexuais.

5. Depois o cara descamba a dizer que em vez de investir em merenda escolar, em caderno, lápis e em professores, os congressistas querem gastar dinheiro com kit anti-homofobia: uma coisa não exclui a outra. São problemas diferentes e devem ser tratados de formas diferentes e com verbas também diferentes.

6. O seu filho pode "virar para outro lado" por causa dessa "ideologia GLS": não se trata de uma ideologia. Ideologia é isso que você tá repetindo com esse vídeo, um vídeo que alimenta a dominação de uns sobre os outros. Isso é ideologia. E como assim meu filho pode virar para o outro lado? Que outro lado? O lado negro da força? Quem definiu o lado que ele tem que virar? E se a resposta for Adão e Eva, me poupe da discussão. Se seu deus admite que você use o nome dele para atitudes preconceituosas, ele não serve pra mim. Gosto de pensar num deus de amor, não de ódio.

7. "Achar que essa atitude é normal" e colocar os "Gays acima de todos", "A mídia não está preocupada com o gordo e com negro que sofrem bullying": eu queria saber o que é normal. É normal eu ensinar pra uma criança que sexo é feio? Que o sexo dela é inferior (como muitas menininhas são ensinadas desde que nascem)? É normal eu me escandalizar com o amor entre duas pessoas do mesmo sexo? Quem definiu o normal? Se a resposta for Gênesis de novo, voltamos ao ponto que concluí o último item. E aí vem aquela parte de que todos temos direitos iguais e que não podemos colocar os gays acima de todos. É a mesma conversa de gente que tem medo de perder a supremacia do grupo dominante do qual faz parte. E de novo a criatura mistura outros problemas como discriminação por cor e peso, forma física. E diz que a mídia não se importa com isso. A gente não precisa excluir um problema para falar de outro.

E daí a pessoa completa com: "Pais de todo o país, se você se preocupa um pouquinho só com seu filho, abram o olho para a m... que tão (sic) fazendo nas escolas".

Eu digo: pais de todo o país, se vocês pretendem formar um ser humano digno, que respeita os outros, ensinem pra ele meia dúzia de palavras: diversidade, respeito, direitos e limites. Ensinem aos seus filhos que o direito deles de dizer as coisas não pode ofender ninguém. Ensinem a eles que entre o normal e o anormal existe uma barreira que muda a todo instante. Ensinem pra eles que flexibilidade evita guerras, evita violência, evita um mundo muito feio no qual eu tenho certeza que vocês não querem que eles vivam.

Vou terminar com uma frase da coluna do Contardo Calligaris de hoje:

Pois é, existem três categorias de manifestações: 1) as mais generosas, que pedem liberdade para todos e sobretudo para os que, mesmo distantes e diferentes de nós, estão sendo oprimidos; 2) aquelas em que as pessoas pedem liberdade para si mesmas; 3) aquelas em que as pessoas pedem repressão para os outros. O que faz que alguém desfile pelas ruas para pedir não liberdade para si mesmo, mas repressão para os outros?

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Sobre fantasmas

E meus fantasmas continuam existindo. Aliás, os meus, os seus, os nossos. Eles não se mudam para outro continente, não vão fazer trabalho voluntário na África. Eles vivem por aí, estudam, trabalham e falam bobagens. Eles mudam de forma, não se parecem mais com o que eram, mas sempre vão existir. É uma pena, de verdade, que esse não seja um blog anônimo e por isso eu não possa falar sobre tudo o que eu gostaria do jeito que eu gostaria.

Não é que muita gente leia, mas eu fico sempre aterrorizada com a quantidade de posts que podem ser lidos pelas pessoas erradas (ou seriam as certas?) e eu suspeito que algumas coisas já deram errado na minha vida por conta dessa minha boca grande. Mas aí eu fico pensando que eu não posso culpar o meu blog. E eu nem posso culpar o fato de eu escrever sobre as coisas que eu sinto. Eu posso sim culpar gente que não sabe interpretar um texto e um contexto, coisa bem importante.

Digressões a parte, hoje, enquanto eu me enganava e não fazia a minha dissertação, deparei nas atualizações do facebook com alguém que foi, durante muito mais tempo do que eu gostaria de dizer, meu fantasma. Agora o problema em me deparar com ele não é mais aquele aperto no peito, aquela dor de fato que eu sentia quando fazia a coisa errada (a coisa errada é fuçar onde não se deve e, inevitavelmente, encontrar o que não quer).

Hoje o que eu lembrei foi que, anos atrás, tudo o que dizia respeito ao fantasma doía e não se tratava de uma dor figurativa, mas daquela dor REAL, que irradiava pelo peito, os braços formigavam e eu tinha que respirar fundo pra aliviar um pouco: muito conhecida como angústia essa dor.

Fiquei pensando que a melhor maneira de saber se você se livrou de um fantasma é você se deparar com ele e não se assustar. Na verdade, ele não é mais seu fantasma se o susto que você leva é por ter percebido que ele não te causa mais dor. Passou, você não quer e não precisa mais saber. Segue a vida em paz, é o que você deseja pra ele.

Ainda assim, não é a saída de UM fantasma do purgatório que livra a nossa pobre alma do tormento de ser assombrado. É que, quanto mais a gente cresce e se envolve e conhece as pessoas e se deixa levar pelo o que elas dizem e se apaixona, a gente fica vulnerável.

Você pode, sem nem perceber, adotar um novo fantasma, que se você for analisar a fundo, não é tão novo assim e se parece muito com aquele que não te causa mais medo. E aí, só então você percebe o quanto o passado custa a passar e isso dói. Dói porque os fantasmas de agora parecem sempre mais angustiantes do que os que ficaram pra trás.

O fantasma daquela época teve data de nascimento e eu posso situar proximamente a data da morte. Hoje eu compreendi que já encerrei esse fantasma em um túmulo e coloquei em cima uma inscrição. Continuo esperando ansiosamente pelo dia em que fantasma que me atormenta hoje se transformar em uma lápide. Só aí vou poder falar sobre ele.

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  segunda-feira, 27 de junho de 2011
Sobre jogo, sobre amor, sobre tropeços

Vou contar uma coisa que pode não ser muito interessante, mas que diz muito sobre mim. Eu posto meus textos e reviso depois. Mais do que isso, no dia que eu resolvo postar, eu escrevo, levo um certo tempo fazendo isso e, quando coloco o ponto final, logo em seguida aperto em "publicar postagem". Aí, eu aperto em "visualizar postagem", copio o link, coloco primeiro no twitter, depois no facebook e só depois reviso.

E você pode se perguntar porque isso diz muito sobre mim. E eu posso responder que isso diz muito da minha ansiedade, da minha necessidade em, uma vez as coisas prontas e acabadas eu me livrar delas. Não faço isso só com textos de blog, fazia com as minhas provas na faculdade também. Escrevia questões imensas e entregava sem nenhuma revisão para o professor. E eu sempre me dizia que era porque eu não enxergaria os erros mesmo. Mas eu enxergo os erros sim, e às vezes eles são feios, do tipo de quem troca c por s ou vice-versa. E olha que eu sou dessas pessoas que se irritam com erros ortográficos e gramaticais.

Mas é que não é só quando eu escrevo que eu cometo erros por "falta de revisar". Eu cometo erros nas minhas ações, nos meus pensamentos que nem sempre acompanham o tempo que as coisas levam para acontecer. Uma amiga minha disse que meus atos-falhos são didáticos e e são mesmo. Coisa bonita de se ver. Eu os cometo na fala, nos esquecimentos (e quantos são os esquecimentos) e especialmente, muito especialmente na escrita.

Nos últimos tempos, meus atos falhos de escrita tem girado em torno de uma só palavra: amor. E algumas amigas puderam testemunhar um bem bonito que eu fiz num e-mail. Não dá para dar sorte para o azar, eu queria dizer. Mas é no amor que eu não tenho dado muito sorte. E aí, imediatamente penso que a gente não pode ter sorte no jogo e no amor. E não é que nos outros aspectos da minha vida eu sempre tive sorte?

Todo mundo aqui em casa acha que eu sou sortuda. E olha, posso contar alguns bons episódios de sorte que sucederam outros em questão de minutos. Sou dessas pessoas que ganham rifas, sabe? Mas nunca acertei mais que dois números na mega-sena. Mas quando comecei a escrever esse post, ele era quase que um pedido de desculpas para mim mesma. Dados meus textos publicados nesse mês dedicado aos santos casamenteiros e aos namorados, me percebi soando tão amarga. E eu nunca fui dada ao amargor, sabe? Mas veja que bonito que é esse nosso inconsciente, nessa primeira tentativa de escrever o post, que foi sucedida por isso que estou escrevendo agora, adivinha qual palavra eu coloquei no lugar de amargor? Pois é. Ultimamente ando vivendo de meus tropeços.

Apesar de não ser dada ao amargor, tenho me sentido bem incomodada com a minha solidão. E é bom notar, apesar que isso pode soar como a maior presunção da vida, que essa solidão é fruto de uma escolha que vem se repetindo há muito tempo. Nunca fui partidária de se não tem tu, vai tu mesmo. Continuo não sendo, é bom enfatizar. Algumas pessoas dizem que as exigências são grandes, que não é por aí. Minha mãe é a primeira a dizer que o problema é pular de cabeça nas coisas. Gente, não concordo?

Eu não acho que eu seja exigente e nem acho que precise pisar em ovos. O que eu tenho certeza é que eu só funciono por mais de uma semana do lado de alguém se eu estiver apaixonada e admirada pela pessoa. Dessas duas coisas, acho que o que o mantém as pessoas juntas é a segunda. Eu também tenho certeza que se não for pra me jogar, nem vou.

Eu tava escrevendo que costumo ser cautelosa em outras áreas. Mas acho que só finjo de cautelosa. Na verdade, esse meu caminho por onde minha vida me trouxe (em todas as áreas dela) foi resultado de duas coisas. A primeira é que eu tomo decisões impulsivas. Sou impulsiva, sou ansiosa também. A segunda é que I`m not a quitter (e essa frase só fica boa em inglês). Deve ser por esse segundo motivo que tanto me incomodam aqueles que desistem muito facilmente.

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  quinta-feira, 23 de junho de 2011
Sobre o que é dolorido

Dias atrás, compartilhei no facebook o link dessa reportagem. Uma pessoa que eu sigo no twitter retuitou, eu postei no facebook e um amigo compartilhou. Algumas pessoas comentaram no meu perfil, mas nada que tenha incitado uma discussão, já que, quem comentou se posicionou a partir do ponto de vista que, para mim, é o único possível: o do patético, o do absurdo.

Mas aí, hoje eu reparei que o meu amigo que compartilhou o link contava com mais de 30 comentários e, curiosa que sou, resolvi ler. E aí que minha boca abriu e até agora não fechou mais. Eu fiquei assustada. E quando eu decidi escrever sobre isso pensei: por que ficar assustada, se esse é um posicionamento que eu venho escutando desde que eu me entendo por gente?

Pois é, mas eu fico. E faço questão de ficar e de comentar e de brigar. Porque caso contrário, eu vou me sentir numa posição de estar dando aval para um monte de absurdos do tipo que a mulher precisa se dar o respeito, porque a mulher sabe a condição do mundo em que a gente vive, um mundo em que a gente corre o risco de ser estuprada. E se eu, sabendo que vivo nesse mundo, continuo a me "portar de tal forma", sei lá, vestir uma roupa que indique que eu "não me dou o respeito" é sinal de que eu praticamente estou pedindo para ser estuprada (uma das pessoas que comentou o link do meu amigo utilizou essas palavras). E aí esse tipo de raciocínio ainda é seguida com algo do tipo que cada um tem o direito de ter um ponto de vista.

É o seguinte: se o seu ponto de vista é esse, não, você não tem o direito de tê-lo, porque o seu ponto de vista fere a liberdade sobre um corpo que vem em frente ao seu direito deturpado de falar bobagens sobre assuntos sobre os quais não entende. Não, esse bispo não tem o direito de falar um absurdo desses, não, ele não pode dizer que o estupro é uma maneira que a vítima utiliza para se eximir de responsabilidade sobre o fato de ser vítima. Ela não é responsável pela violência sofrida e se essa violência resulta numa gravidez, não é com prazer que se recorre ao aborto. Eu nunca vou esquecer aquele caso de uma criança, sim, uma criança de nove anos que engravidou de gêmeos do pai ou padrastro e a igreja tentou de todas as maneiras convencer a mãe e a criança a impedir o aborto. Uma criança grávida de nove anos. Por causa de estupro.

E aí, como eu também compartilhei o link no meu perfil, um colega veio falar que havia, antigamente, uma doutrina de acordo com a qual a negativa precisava ser barulhenta, que a negativa tímida ou silêncio descaracterizariam o estupro. Isso não é mais válido, segundo os universitários consultados, ainda bem! No entanto, esse não é o tipo de pensamento que a gente vê a todo instante? Um pensamento que ignora que silêncio e negativa tímida têm a ver com uma coerção de gênero que é tão velha quanto cultural?

Pois bem. Por mais que depois eu tenha sabido que a pessoa que disse todas as baboseiras descritas acima ainda é um moleque que nem tem 18 anos eu pensei que a gente tem que ser um pouco compasivo e que muita gente simplesmente nunca parou para pensar no assunto sob outro ponto de vista, outros argumentos, enfim, sob uma realidade que é de violência. Um adolescente que pode nunca ter parado para pensar, que pode nunca ter tentado, ao menos tentado, se colocar no lugar do outro.

Mas aí uma outra pessoa nesse mesmo post, primeiro timidamente e depois ostensivamente, toma o partido do bispo. Primeiro fala que a manchete foi "manipulada" pelo repórter. Que o bispo não disse que o estupro é possível apenas com o consentimento da mulher. E depois fala que foi omitida da reportagem uma parte em que o mesmo bispo diz que a pessoa que "se julga vítima" (vejam, ela não é vítima, ela julga-se vítima), deve fazer um boletim de ocorrência e apontar o nome do agressor. E que se ela não tem esse nome, ela pode fazer um exame de espermatozóide (que eu suponho que seja DNA), para descobrir quem é e a justiça poder ir atrás.

Percebam a IGNORÂNCIA, o PRECONCEITO. Em primeiro lugar, o judiciário não é CSI. Quando a gente nasce, não coletam amostras de cabelo, sangue, ou sei lá o que, para que se, um dia fizerem um exame de DNA, ou eu cometer um crime, a justiça vai descobrir que fui eu. E se essa pessoa diz isso, ela demonstra não saber, em primeiro lugar, que o exame de DNA é comparativo. Burrice. Ignorância. Fique quieto, se é besteira que vai sair da sua boca. Em segundo lugar, grande parte dos estupros não é denunciada justamente pela histórica coerção de gênero que a gente vive. E quando os estupros acontecem dentro de casa, os motivos para não denunciar aumentam.

Você pode dizer que eu não estou contando nenhuma novidade. Mas olha, quando eu descubro que quem faz esse tipo de comentário, quem se posiciona dessa maneira pretende um dia se tornar um psicólogo, eu me encho de dor. De dor sim. Porque o que essa pessoa pode fazer a partir do uso da profissão dela é ASSUSTADOR. Isso me deprime de tal forma que eu não consigo descrever. E ainda ontem eu conversava sobre isso com uma amiga. Os assuntos se repetem. E parece que em todos os lugares movimentos reacionários como esse se insinuam. E isso é muito dolorido.

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  segunda-feira, 13 de junho de 2011
Sobre violência

Dias atrás, tive um começo de conversa que eu precisava ter há uns bons meses. Digo começo de conversa porque ela terminou com uma mensagem no celular, me dizendo que a internet estava muito ruim e que a gente a concluiria com um café. Achei bom. É que algumas coisas, por mais fáceis que pareçam se digeridas pelo msn, precisam de um café, nem que seja para você ter um buraco para olhar quando não consegue levantar a cabeça , o da xícara, que ajuda a distrair a mente, as lágrimas de criança.

Se tem uma coisa que me incomoda em mim é isso. Eu choro. Queria chorar menos, queria poder ter aquela voz firme, aquela que tenho dentro da minha cabeça quando penso nas coisas ruins que me acontecem. Não nas trágicas, nas ruins. Nas trágicas, não ligo de chorar. Foi aí que, no meio dessa conversa difícil, que era difícil porque não tinha a ver só comigo e só com ela, que eu disse pela primeira vez o quanto aquele assunto ainda me incomoda. Por mais que já tenham passado muitos meses, têm algumas coisas que insistem de tal maneira...E aí, como eu disse para ela, quando me sinto desse jeito, o jeito mais fácil parece ser sempre estudar, escrever, trabalhar, servir de orelha para deus e todo mundo, mas não emprestar a de ninguém.

Assim é mais fácil porque daí não tem aquele nó constrangedor na sua garganta insistindo em deixar a sua voz embargada e denunciando o quanto você demora para se recuperar dos choques. E aí eu contei pra ela que não foi só dela que eu me afastei, mas que, por alguma razão que era fácil de entender, ela era a pessoa de quem eu mais tinha me afastado e isso doía um bocado. Ainda sem conseguir dizer o que nos tinha causado tudo isso, eu falei por uma via indireta e que ela entendeu, porque me respondeu assim: "acho que o que aconteceu foi uma violência muito grande e eu imagino como você deve estar se sentindo".

E pode parecer uma besteira você se sentir acolhida por uma manifestação de empatia. Mas é o que ela me deu foi mais do que a mão, foi mais do que a empatia que toda boa amiga é capaz de dar. Ela me deu uma definição. Pode não ser uma definição pronta e acabada do que aconteceu. Sequer pode ser considerada uma definição óbvia para quem, olhando muito de fora, não sabe como eu me afeto maximamente com coisas mínimas.

Antes de se despedir, ela disse que quanto tempo fosse necessário para eu descobrir o que, afinal, eu perdi, enfim, quanto tempo fosse necessário para eu descobrir o que levaram de mim nesse ato de violência, eu precisava me dar. E aí fica a minha pergunta: por que, para algumas pessoas, é mais fácil sair da vida da outra a partir de um ato de violência? Por que a gente não pode se despedir com um pouco de delicadeza?

O que eu perdi? Acho que foi a fé.

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  quinta-feira, 9 de junho de 2011
Sobre ser solteira (Parte 2)

Coincidentemente, a história do porteiro que me identifica como a Angela solteira e a da vizinha que se identifica com a minha solidão, aconteceram alguns dias antes do dia dos namorados. Eu poderia ter deixado quieto e não fazer nenhum comentário a respeito. Mas eu acho que as coisas acontecem por razões pré-determinadas e agora, estamos aí, a três dias do 12 de junho.

Antes de falar sobre isso, eu queria dizer aos que falaram ou pensaram que eu sou solteira e não sozinha, que eu sei disso. Nunca pude reclamar de falta de companhia para nada nessa vida. Até uma amiga que gosta de visitar cemitérios, como eu, eu tenho (acho até que tenho duas). Existe uma diferença fundamental entre você decidir fazer algo all by yourself porque você gosta da sua companhia e você ir ao cinema chorandinho, pensando no quanto você é renegado pelos seus amigos e mal-amado. Eu não sou disso, deixemos claro.

Agora, sobre o dia dos namorados...Eu poderia dizer que não me importo. Não lembro o que eu fiz no ano passado nesse dia, mas é provável que eu tenha ficado em casa. No ano anterior eu namorava, mas meu então namorado morava longe de mim, assim como no ano antes desse. E no ainda antes desse, eu não namorava. Ou seja, faz tempo que o dia dos namorados não é nada de mais.

Eu poderia dizer que é só uma convenção social; uma data comercial; que pouco me importa; que eu vou ME DAR um presente de dia dos namorados, tamanho meu amor-próprio. Mas tudo isso seria um monte de subterfúgios. Desses que pessoas solteiras usam para não se sentirem assim, tão solitárias em um dia em que tudo é para dois. Não bastassem as promoções de viagens do peixe urbano serem sempre pra dois e você não comprar nunca, por mais que te interessem, porque fica pensando quem iria com você.

Acho perigoso escrever isso a três dia do 12 de junho, mas lá vai. Há uns dias atrás eu estava conversando com uma amiga sobre esses assuntos errantes que são os que se tratam das tentativas de gostar de alguém e ela me disse que para essas situações, a gente não pode confiar em conselho de quem tem namorado. É que essa pessoa já não entende mais pelo o que a gente passa. Ela tem outro código de conduta "certo e errado" a seguir, agora que ela tem namorado. Logo, por mais que as amigas comprometidas sejam queridas, amadas e companheiras, vai faltar a elas uma compreensão muito básica do que a gente sente. Pra ela, pode não ser NADA tudo ser servido para dois. Para ela, pode não ser nada decidir ir ao cinema domingo à tarde. Para nós (em nosso dileto clube), não é assim.

E por mais que elas digam que sabem como é, porque já fizeram parte do clube, isso não quer dizer nada. Isso não dá a elas capacidade de compreensão da situação alheia. Isso que acontece no dia dos namorados só é um superlativo do que acontece todos os dias, todo domingo entediante que você resolve ir ao cinema. Sei que soa como amargor e que as pessoas não gostam muito de ouvir a verdade. Especialmente as pessoas que saíram (ou nunca entraram [vai dizer que você não tem aquela amiga que não sabe o que é estar solteira?]) do polígono da solteirice.

Mas estamos aí. Esperando ansiosamente pelo 12 de junho.

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