a dona desse blog
é de uma teimosia absurda. além de ser psicóloga, é leitora, aspirante à escritora, filha, irmã, tia e amiga, é indecisa por natureza, não sabe fazer planos e deixa sua vida ser dominada por uma ansiedade que ela sempre achou que disfarçava bem. acha que todo dia é ideal pra questionar se suas ações estão certas, se está sendo justa consigo, se faz o que gosta (e por enquanto faz). é uma dessas pessoas que gosta da solidão da própria companhia mas não dispensa uma cervejinha com aquelas pessoas que sabem conversar, de preferência em um boteco bem boteco, porque estes servem as mais geladas.

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  segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Sobre essas felicidades

Hoje fui ao cinema. Tinha combinado de ir ver O amor e outras drogas com duas queridas, mas não rolou no fim de semana, não rolaria no próximo e eu precisava sair de casa. É que eu não botava meus pezinhos para fora desde quinta feira, quando fui à delegacia fazer B.O. do acidente.

A outra motorista veio me buscar. Entrei no carro e ela perguntou como eu estava, se estava dolorida. Uma fofa. Lá na delegacia a gente conversou um pouco, deu pra ver o quanto é boa pessoa. Uma das coisas que ela disse é que ela entende o que aconteceu porque tem maturidade pra isso, e as filhas dela ainda não têm.

Quando ela me deixou em casa, falou pro marido esperar um pouco, ela desceu do carro e me deu um abraço. E eu abracei ela (i'm not a hugger) e pedi desculpas. E ela disse que já tinha passado. E o coração veio na garganta porque poderia sim ter sido pior. Porque eu fico lembrando o tempo todo da traseira do carro dela muito perto e do que eu senti naquela hora e revivo quando essa imagem me vêm: um medo filhodaputa.

Depois eu fui encontrar uma amiga no centro e nós ficamos andando de lojinha em lojinha, fomos até um shopping e de lá voltei pra casa. Não saí mais. Hoje eu acordei sabendo duas coisas, uma era que precisava limpar a minha casa decentemente (só onde o bispo passa não tava dando mais). A outra era que eu precisava sair, dar boa tarde pro porteiro e começar essa semana me dando uma folga que eu não me dou há muitos dias. Eu sou a pior chefe que alguém pode ter. Porque eu trabalhei sábado e domingo o dia inteiro. Li, escrevi e fichei.

Depois de ter terminado a faxina, tomei um banho e fui. No ônibus de todo dia e encontrei uma conhecida que estudava comigo lá em Maringá. Desde que mudei para Curitiba, já deve ser a quarta vez que nós nos encontramos no ônibus, e talvez a segunda ou terceira que ela está voltando do trabalho e eu indo ao cinema. E eu podia ter ido ver um filme mais pesado, tipo Biutiful. Ou um mais movimentado, tipo O turista. Mas eu gosto mesmo é de comédias românticas. É que eu acredito mesmo nelas.

Tem vezes que algumas coisas acontecem na minha vida e eu falo que ela parece uma novela do Manoel Carlos. Mas as novelas do 'Maneco' (odeio quem fala Maneco) são muito chatas. Todo mundo tem muito dinheiro (sem trabalhar) e comem saladas em restaurantes que não mudam. Tragédias tipo câncer e gente paraplégica têm também. E quanto à minha vida, eu não posso estar me queixando, como disse para a simpática moça do seguro do carro que me ligou para estar perguntando se eu estava satisfeita com o atendimento e se estaria indicando o serviço para outras pessoas.

Não, definitivamente, tragédias não acontecem na minha vida. Mas as coincidências sim. Dessas de encontrar pessoas conhecidas no bondinho do pão de açúcar e no metrô de São Paulo. Dessas que fazem aparecer na hora do acidente uma pessoa que gosta de mim e que se importa comigo, como num passe de mágica. Dessas que fazem a minha bolsa do mestrado chegar quando eu já estava quase entregando os betes antes da maria vitória, enfim. E algumas dessas coincidências poderiam ser contadas numa comédia romântica (se bem que as últimas foram mais para 500 dias com ela e Ele simplesmente não está a fim de você).

E aí hoje, como naquele dia do acidente, era pra tudo ter dado certo e deu. Cheguei no cinema na hora certa, comprei uma casquinha de chocolate, fiquei olhando umas fotos, entrei pra ver o filme e fiquei ali percebendo (como sempre percebo) o quanto gosto disso de ir ao cinema sozinha. E observo pessoas que também vão sozinhas, e fico imaginando se pra elas, isso também é um baita programa. Se elas também estão gostando da própria companhia quando deram muita risada numa das cenas do filme que é realmente engraçadíssima. Ou se elas gostariam de ir com alguém.

Quanto a mim, eu gostaria de ir com as minhas amigas. É divertido ver comédias românticas com as amigas. Eu gostaria de ir com um namorado. É gostoso ver comédias românticas com namorados. Mas eu também gostaria de poder continuar indo sozinha e voltar pra casa sem bode. Achando a maior sorte do mundo ter precisado correr meia quadra, mas não ter perdido o circular que tava passando naquele momento, e não achando tão ruim assim ter tomado a chuva que caiu quando desci no ponto. Porque hoje é o último dia de janeiro. E a gente tem que começar o ano tomando chuva, sabe? Pra água levar embora o que tiver de ruim sobrando em cima do ombro, mesmo que isso de ruim seja só o calor.

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  quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Sobre o que teria sido um bom dia

Quase todos os dias meu despertador toca às 9h, mas eu levanto ou 10h, ou 10h30. Se a gente considerar que hoje em dia meu trabalho é estudar e eu fui dormir 2h30 porque fiquei estudando, durmo em torno de sete horas por dia. Coloco o despertador para as 9h pra ficar alerta, pra não passar a manhã na cama, aí dá tempo de fazer almoço e outras coisas aqui em casa.

Mas ontem, 10h30 acordei com um susto, estranhei não ter ouvido o despertador, levantei, arrumei minha cama, tomei um banho e comecei a fazer o almoço, porque 14h eu tinha médico. Em outubro do ano passado consegui uma consulta para 01/02. Na terça feira me ligaram perguntado se eu não gostaria de adiantar minha consulta para ontem. Ontem eu nem teria saído de casa, se essa mudança não tivesse acontecido. Saí de casa antes das 13h15, porque eu não sabia onde era o consultório. Olhei no google maps, tive uma idéia de altura da rua e fui bem adiantada. Levei o Freud comigo, meu caderno, caneta e lápis, porque tem muito médico que faz a gente esperar horas.

Quando eu tava na garagem, encontrei o síndico. Ele olhou pra mim e disse "Nossa, vai sair de carro hoje?". Como eu sou implicante, fiquei com vontade de responder que não, que eu tinha resolvido passar o dia dentro do carro na garagem, mas fui educada: "Pois é, uma raridade". Aí ele, "Você sempre sai a pé, né? Aqui em Curitiba é complicado mesmo conseguir estacionar". E eu completei, "Uso só quando preciso, quase sempre eu vou muito perto daqui, e uso ônibus bastante também". Entrei no carro e parti.

Estranhei que naquela hora a Visconde de Guarapuava tava estranhamente tranquila. O trânsito fluindo. Daquele jeito, eu pensei, chegaria antes das 13h30 no consultório da médica, ainda bem que tava levando coisas pra fazer. Na rua que eu tinha que virar, a Coronel Dulcídio, a mesma coisa, uma tranquilidade, semáforos abertos e eu segui descendo. E por um segundo, olhei pro lado para ver se eu estava próxima do número onde eu tinha que ir. E naquele segundo, o trânsito parou, e eu enchi a traseira do carro da minha frente. E foi a pior sensação que eu já tive, mas só até aquela hora.

Sabe, eu sou calma. É muito, muito difícil eu perder a cabeça. Mais difícil ainda é eu alterar meu tom de voz. E quando aconteceu isso e eu me dei conta que tinha batido o carro e que não tinha sido um acidente pequeno, que meu carro, tão querido, que eu fiquei tão feliz em comprar, estava com a frente destruída, radiador estourado, óleo vazando e sei lá mais o quê. Fiquei muito triste e confusa. Não consegui sair imediatamente do carro. Eu tava tremendo e eu tava sozinha. E as pessoas que eu tenho aqui estavam no trabalho. Na mesma hora, apareceu uma guardinha da urbs e um amigo, dessas coincidências felizes, desses sinais que volta e meia eu recebo de que Deus vai muito com a minha cara.

Eu saio do carro e tento falar com a dona do outro carro. Explico que vou ligar pro meu seguro e chamar o guincho. Peço os dados dela, ela pede os meus e tudo bem. Até que chega uma filha dela, uma que não estava no carro com ela na hora do acidente, muito descontrolada, grita comigo enquanto eu falava ao telefone. Diz que eu devia estar correndo muito, que era um absurdo eu estar correndo naquela rua. E isso não era verdade. E eu odeio quando as pessoas não ouvem e quando falam o que não sabem. Ela disse que eu não deveria nem sair de casa. Lembra que a batida tinha sido a pior coisa que eu já havia sentido? Pois é. Essa frase superou.

Eu tenho carteira há 8 anos. Uma vez uma pessoa bateu em mim no trânsito e não percebeu. Fui atrás e com toda a educação, e com mais educação ainda exigi que ela pagasse os danos. E pagou e tudo bem. Mas aquela moça, muito descontrolada, imagino que pelo susto que levou, disse que eu não deveria sair mais de casa. Eu nunca levei uma multa no trânsito, nunca passei acima da velocidade em um radar, e eu estava no máximo a uns 50 km/h numa rua em que ninguém anda a menos que isso. E eu me distraí, por um segundo e bati no carro parado dela.

Foi minha responsabilidade. Meu erro. A gente tem que olhar pra frente, porra. Mas sei também (e a outra motorista me disse isso quando pediu desculpas pela atitude da filha) que nada garante que amanhã não seja ela. Da mesma forma que há alguns anos, a falta de atenção de uma pessoa atingiu meu carro, ontem minha falta de atenção atingiu o carro de outra pessoa. E não me eximi. Resolvi tudo. É claro que ela vai ficar sem carro até ele ser consertado. É claro que é um transtorno. Mas é claro que eu não sou um perigo que deveria ficar em casa. Quando uma coisa dessas acontece, todos frustra! Todos. E eu não saí de casa pensando: "Nossa, é hoje que eu encho a traseira de um carro..."

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  segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Sobre caminhos tortos


Continuo lendo Freud como se não houvesse amanhã e continuo fazendo chaves ao lado de alguns parágrafos e escrevendo ao lado "bonito". Sem grandes reflexões, sem brilhantes conclusões e digressões minhas que seriam muito insignificantes. Na última vez que eu escrevi aqui, escolhi duas dessas frases bonitas, mas só porque elas me fizeram pensar em algumas coisas. De resto acho bem chato ficar fazendo isso o tempo todo. Sei lá, ler pessoas que escrevem brilhantemente e mostrar a minha sagacidade em escolher frases de efeito, sobre as quais nada tenho a dizer e nem me fizeram pensar. Acho pedante.

Enfim, escrevi isso porque, pensando muito rápido sobre a minha vida, fiquei com a impressão que sempre andei pelos caminhos mais tortos antes de chegar nos objetivos. E já contei vários desses meus trechos do que sou eu errando pela vida. Mas acho que nunca comentei que quando conheci Freud não fui com a cara dele. Continuo culpando um texto que NUNCA deveria ser apresentado pra gente de segundo ano de Psicologia. Tem tanto texto bacana que ele escreveu para apresentar a psicanálise e uma professora resolve começar pelos espinhentos, cheios de notas de rodapé freudianas (muitas e longas). Ela não deveria saber que, antes de descascar o abacaxi, a gente tem que gostar de abacaxi? Deveria saber.

Mas enfim, o que aconteceu algumas pessoas bem íntimas sabem e continuam me amando, aceitando ainda assim. Depois de ter ficado bem decepcionada com a psicanálise, o próximo autor da lista da professora era o Reich. E por mais difícil que seja dizer em voz alta, sim, eu curti Reich. E eu fui em congresso de psicoterapia corporal E achei legal. Quer dizer, eu achei legal só até eu ter me inscrito numa coisa do congresso que chamava "vivência". Havia conferências, mini-cursos, mesas-redondas e vivências. Não lembro direito, mas devo ter achado o nome bonito e fui.

E quando cheguei na tal vivência, de fato vivenciei a coisa que mais odeio, mas que alguns acham superbacana, interativo, interessante e sei lá mais o que, que é colocar pessoas que não se conhecem, nunca se viram na vida, em situações de constrangimento. O termo vivência deveria ter servido de alerta, mas esperteza nunca foi meu forte. Enfim, eu me vi numa sala toda encarpetada com mais, sei lá, vinte pessoas. Nos mandaram tirar o sapato (por quê, meu deus, por quê?) e imitar gorilas, fazendo pares e fazendo de conta que catava piolhos na cabeça um do outro. Isso foi tão, mas tão traumatizante/humilhante, que só consigo lembrar de alguns flashes, de que a coisa toda durou mais tempo e que houve outros constrangimentos sem os quais eu poderia ter passado o resto da minha vida.

E logicamente, eu não lembro o que foi dito, mas lembro que não saí por medo que pudessem falar mal de mim. TIPO, como uma pessoa encouraçada dessas resolve curtir psicoterapia corporal. E como uma pessoa que se sente desconfortável com beijos e abraços gratuitos e aleatórios e que não sabe e nem nunca soube se expressar fisicamente (nulidade nos esportes tá aí que me deixa mentir) acha que seria uma ideia bacana a abordagem. Nem vou falar dela aqui porque posso falar (mais) besteira.

Bom, depois disso, por uma felicidade do destino, li um texto muito maravilhoso de Freud que não parecia mais um compensando de conceitos que eu não entendia e que, pelo contrário, dizia sobre coisas que faziam parte da minha vida. Me rendi. Quando resolvi fazer mestrado, sempre tomando o caminho mais espinhento, demorei para entender o que eu queria pesquisar e por quê. E aí (olha como a psicanálise é bonita), eu chego a conclusão que o que eu mais gosto dela tava naquele texto, sobre o qual muitos xiitas falam mal, e em muitos outros que eu leio, leio e leio e não me canso, porque eles me mostram, em primeiro lugar, que a minha pergunta é superpertinente à psicanálise, à prática dela e ao que dizem sobre ela. Em segundo, porque eu percebo que me pergunto isso desde que, aos dezenove anos, quando fiquei sabendo que ela existia. Mas tudo isso hoje é óbvio, porque é assim mesmo que a psicanálise funciona.

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  sábado, 15 de janeiro de 2011
Sobre fugir

Mas não é possível fugir de si próprio; a fuga não constitui auxílio contra perigos internos

Essa frase eu tirei de Análise terminável e interminável, um texto do Freud que, como não poderia deixar de ser, é bem escrito na mesma medida em que é denso e que consegue falar sobre tudo o que é de fundamental à psicanálise. Sempre falei aqui sobre as coisas que penso, e quase sempre sobre as coisas que sinto. Na verdade eu me escancaro. Não existe meia medida comigo, o que às vezes é doloroso ao mesmo tempo em que me conforta e me dá força pra seguir em frente quando eu desanimo.

No meio da atenção que a frase me despertou, eu entrei no msn e comecei a conversar com uma amiga. A formatura dela tá chegando, meu convite está reservado há anos e eu tô muito feliz em poder ir à festa. A gente não conversa mais todos os dias, e dá pra contar nas mãos quantas vezes nos vemos por ano, mas volta e meia conversamos sobre de tudo um pouco. E ela tá passando por aquela fase muito crítica de quem termina a faculdade.

Que fazer? Procurar emprego até gastar sola de pé e ponta de dedo de tanto mandar e-mail? Fazer especializações, cursos, mestrado e sei lá mais o que para melhorar o currículo e ter mais que uma alternativa? As duas coisas? Quanto isso vai custar? Quanto de nós vai custar? Porque custa mais que dinheiro, mais que barras de ouro, inclusive. Implica perdas. Os amigos que fizeram diferentes escolhas estão também em lugares diferentes que você. Podem estar mais realizados, inclusive. Podem estar menos também. E aí, lendo um outro texto do Freud eu me deparo com isso:

[...] não se tem o direito de desesperar por não ver confirmadas as próprias expectativas; deve-se fazer uma revisão dessas expectativas.

E quando li isso ontem pensei em muita coisa. E sabem, não é a toa que esse trecho tá num texto que chama A história do movimento psicanalítico. Fiquei imaginando que escrever sobre a história do que foi a vida dele, deve ter feito Freud pensar e relembrar muitos desses momentos de possíveis desesperos, de quedas das expectativas, de necessidade de tomar outro rumo, seguir vivendo.

Ontem saiu o resultado do vestibular da UFPR. Eu tava na rua com as minhas irmãs quando passaram pela gente duas meninas todas sujas de lama. Depois vi uma vizinha do mesmo jeito na calçada, a mãe dela falando alto que a filha havia passado no vestibular. E sabe, me deu saudade. Porque lembro muito bem o que senti quando passei no vestibular. E lembro do quanto meus pais ficaram felizes. Lembro de sentir alívio. Lembro de pensar que atendi às expectativas deles, que se transformaram em minhas. E lembro de a minha mãe ter contado até pra uma pessoa que ligou enganado na minha casa.

Só que hoje, eu tenho vinte e seis anos e continuo estudando. Ok, eu recebo pra estudar, mas eu tô longe, muito longe de ser independente. E parece que muito longe de sentir o alívio do dia que passei no vestibular. E parece que quanto mais o tempo passa, mais tempo a gente tem que esperar pelo resultado das expectativas e mais a gente se destitui de outras possibilidades. Olhando pra trás, eu gostaria de não ter tentado abraçar o mundo.

E ao mesmo tempo em que penso nisso, penso que preciso voltar pra análise, começar a minha formação, entrar no curso de corte e costura, continuar o francês. Tudo no ano em que eu não tenho mais especialização e nem trabalho e que preciso terminar a minha dissertação, além de me concentrar no doutorado. Só que pensando nessa lista que parece um prenúncio de mais uma tentativa minha de fugir de mim, tirando terminar a dissertação (que é a única coisa necessária de verdade), o que preciso mesmo é voltar pra análise e ver se dou um jeito nessa boca de jacaré que quer abocanhar tudo de uma vez.

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  sábado, 8 de janeiro de 2011
Sobre crescer


E aí sempre tem esses dias em que o peito esvazia. Você sabe como é. É quando, sem perceber, você precisa respirar e expirar bem fundo, como se fosse ar o que estivesse faltando. Como se fosse com ar que desse pra preencher aquele buraco. A contradição é que em dias como esses, ao mesmo tempo em que a gente precisa dessas "respiradas" para ver se consegue ficar mais pleno, a gente sabe que está cheia de alguma coisa e essa coisa é angústia.

E quando eu tento me encher de ar, é como se eu quisesse sufocar o espaço de algo que está tomando todo o lugar, que está oprimindo o peito e que, quando alguma coisa ou outra acontece, pode fazer acontecer aquela dorzinha de novo, aquela dorzinha que já foi dorzona e que agora você consegue dar conta, porque deixou as coisas pra lá, porque concentrou suas energias em outras coisas, porque seguiu pensando nos planos que dependem exclusivamente de você e que também te deixam feliz, pelo menos sempre que você não precisa lembrar de respirar fundo.

Outro dia, umas amigas vieram aqui em casa e ficaram admiradas quando eu falei da minha necessidade de deletar as pessoas, de colocá-las em uma pasta inacessível, como se fosse possível riscar os abandonos e as desistências de mim. Só que quando eu coloco pessoas nessas pastas, fica muito difícil não colocar lugares, palavras, músicas, filmes e até outras pessoas. E esse sempre é o meu medo, especialmente quando as outras pessoas chegaram antes da que precisa ser relegada a um plano onde meu coração fica imune à lembrança de ter sido ter sido deixada pra lá.

E de vez em quando me perguntam: Mas você não pensa mais nisso, não é? Eu faço de conta que não, quando sei que, na verdade, o que acontece é que eu não falo mais e tento não rememorar as coisas tão pequenas e tão poucas. Tento. E tenho conseguido. Mas volta e meia eu preciso lembrar da minha imaturidade e inabilidade em lidar com as desistências dos outros. E aí digo a mim mesma: cresça.

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