a dona desse blog
é de uma teimosia absurda. além de ser psicóloga, é leitora, aspirante à escritora, filha, irmã, tia e amiga, é indecisa por natureza, não sabe fazer planos e deixa sua vida ser dominada por uma ansiedade que ela sempre achou que disfarçava bem. acha que todo dia é ideal pra questionar se suas ações estão certas, se está sendo justa consigo, se faz o que gosta (e por enquanto faz). é uma dessas pessoas que gosta da solidão da própria companhia mas não dispensa uma cervejinha com aquelas pessoas que sabem conversar, de preferência em um boteco bem boteco, porque estes servem as mais geladas.

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  sexta-feira, 22 de junho de 2012
Uma carta para os 'café-com-leite'

Se você não sabe o que significa 'café-com-leite', provavelmente não vai entender a quem a minha carta se dirige, então, antes eu vou explicar. 

Essa expressão fez parte da minha infância. Eu morava em uma dessas ruas com várias casas em que cada uma tinha pelo menos duas ou três crianças para para encher as calçadas de barulhos, risos, gritos, choros e tombos. Era um lugar em que os carros passavam devagar porque todas aquelas crianças, filhas e filhos dos outros, eram filhas e filhos de todos. E se éramos filhas e filhos de todos, respeitávamos todos, pais de nossos amigos, avós, tios e tias. Porque havia diferença entre quem mandava e quem obedecia. E a gente era criança.

Só que entre as crianças, havia algumas que mandavam mais que outras. Esse poder elas tinham porque eram mais velhas. Só que eu era da turma das mais novas. Eu era da última leva de crianças que havia nascido naquela rua e queria brincar com todo mundo. Crianças pequenas são muito inconvenientes e, às vezes, não sabem brincar. As crianças mais velhas sabem disso e, ou porque são pacientes, ou porque foram obrigadas, permitem que as pequenas participem da brincadeira. As crianças mais velhas ficam contrariadas porque sabem que as pequenas não entendem as regras. Para traçar a distinção entre aqueles que estão brincando para valer e aqueles que não entendem o jogo, elas chamam as menores de 'café-com-leite'. Assim, se um 'café-com-leite' está brincando de se esconder, mesmo se ele for encontrado por primeiro, ele não vai ter que contar da próxima vez. Se a brincadeira for 'mãe', ele não vai ter que correr atrás de ninguém. É que ele está brincando, mas não é pra valer.

Algumas crianças ficam bravas e não gostam dessa posição. Querem brincar de verdade, querem sofrer as consequências da brincadeira, porque desde pequenos já sabem que também podem ganhar. Elas não gostam desse jogo em que elas nunca perdem, mas também nunca ganham. E elas mal podem esperar por esse dia em que os outros vão deixá-la ser alguém do grupo porque cresceu.

Crescer. Esse maravilhoso ato involuntário que o corpo impõe. Esse terrível ato voluntário que a maturidade propõe. O problema é que, diante de uma proposta, existem muitas alternativas e eu só quero falar sobre duas delas. Querer continuar sendo 'café-com-leite' ou jogar para valer, aceitando as regras, sofrendo as consequências, perdendo algumas vezes, ganhando outras. Essa metáfora da vida que a gente atua quando é criança. 

Quando a gente cresce, a tendência é que as regras sejam mais complicadas e exigentes. E que, por isso, nossos desejos serão mais difíceis de serem realizados. E tudo bem.

Meu grande problema com essa vida de adulta é que, a cada dia mais, tenho me deparado com vocês, 'café-com-leite'. E não é muito legal ter que conviver com ignorar as possibilidades de vocês não seguirem as regras. Dói fundo, mas menos pelo que vocês estão ganhando. Porque na verdade, vocês não ganham nada quando se recusam firmemente a perder.

Quem é 'café-com-leite' sabe. E sabe porque adora exigir que a sociedade ignore as regras, faça de conta que elas não são para todos. Você, que é 'café-com-leite' sente-se especial e, provavelmente, era dessas crianças que, lá nas brincadeiras, saíam rebolando quando não tinham que assumir o ônus do jogo.

Mas deixem-me contar uma coisa para vocês, meus queridos 'café-com-leite'. Aqueles que estavam brincando de verdade não ligavam para o fato de vocês não terem de assumir as regras da brincadeira. Eles achavam vocês bobos. E, mais importante, achavam que vocês não faziam diferença na brincadeira. E isso continua sendo verdade nessa vida de gente grande que vocês fazem de conta que levam falando grosso, comprando imóveis, tendo filhos e criando esses filhos para serem, como vocês, eternos 'café-com-leite'. E nós, desse lado, continuamos achando vocês bobos.

Por isso vou dar um conselho. Cuidado ao bater no peito por ter se recusado a viver as regras do jogo. É um jeito de viver, mas é o de vocês. O problema é que eu cresci e, quando esse comportamento bate à minha porta, meu estômago embrulha porque eu achava que a vida era feita de mais crianças que brincam pra valer. Será que me enganei? Tenho me perguntado o que houve com a ética de gente que, mesmo quando cresce, quando decide entrar no jogo não se considera imputável.

Sociedade imatura é aquela em que todos querem ser colocados na categoria 'café-com-leite'. Sociedade marcada pela tutela e pela política do 'pano quente'. Uma sociedade que crê que um bom pai e uma boa mãe vão até as últimas consequências para livrar um filho de uma responsabilidade. Quando eles crescem eles continuam agindo assim.

Será que todo mundo quer ser 'café-com-leite'? Que ninguém mais está nessa vida para jogar para valer, ganhando ou perdendo? Quando foi que teve graça brincar desse jeito? 

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