a dona desse blog
é de uma teimosia absurda. além de ser psicóloga, é leitora, aspirante à escritora, filha, irmã, tia e amiga, é indecisa por natureza, não sabe fazer planos e deixa sua vida ser dominada por uma ansiedade que ela sempre achou que disfarçava bem. acha que todo dia é ideal pra questionar se suas ações estão certas, se está sendo justa consigo, se faz o que gosta (e por enquanto faz). é uma dessas pessoas que gosta da solidão da própria companhia mas não dispensa uma cervejinha com aquelas pessoas que sabem conversar, de preferência em um boteco bem boteco, porque estes servem as mais geladas.

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  segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Sobre coração livre

Dar-se enfim (Clarice Lispector)

O prazer é abrir as mãos e deixar escorrer sem avareza o vazio-pleno que se estava encarniçadamente prendendo. E de súbito o sobressalto: ah, abri as mãos e o coração, e não estou perdendo nada. E o susto: acorde, pois há o perigo do coração estar livre! Até que se percebe que nesse espraiar-se está o prazer muito perigoso de ser. Mas vem uma segurança estranha: sempre ter-se-á o que gastar. Não ter pois avareza com esse vazio pleno: gastá-lo.

Pois bem, há alguns meses comprei na rodoviária esse livro com textos selecionados que a Clarice escreveu no Jornal do Brasil entre 67 e 74. Eu li inteiro no tempo que esperava o ônibus. Os textos são relativamente curtos e é esse livro que hoje eu vou abandonar em um lugar público. Ainda não decidi onde.

Vou almoçar no restaurante universitário, e pensei em deixar em cima de uma cadeira. Mas fico pensando que num lugar cheio assim, alguém pode ver e dizer "Moça, você esqueceu seu livro". Eu não tenho planos de andar de ônibus hoje, mas o banco do ônibus seria um bom lugar. É que as pessoas dos ônibus não prestam muito atenção umas às outras. Quer dizer, eu presto. Fico reparando nelas, e fico com vergonha quando elas percebem, mas é que eu sempre gostei de observar as pessoas, de entreouvir conversas. Na verdade eu acho as pessoas muito interessantes.

Aqui perto de casa tem uma pracinha que é uma graça. Aliás, o meu bairro é uma graça. Tem quitanda, lavanderia, mercadinho, padaria, salão de beleza, papelaria, lojas de pijamas, cartório, mecânica, brechós (vários deles), lanchonetes, assistência técnica da máquina de lavar roupas, e vários outros serviços, todos a menos de um quarteirão. Eu me sinto numa cidade bem pequena. Mas eu ia dizendo que aqui perto de casa tem uma pracinha que é uma graça. Fica ao lado de uma quadra pública. Apesar de eu não praticar esportes, adoro que em Curitiba, são muitos esses espaços com quadras, pistas de skate e banquinhos simpáticos. Pensei em deixar o livro num desses bancos, porque facilmente ninguém veria quando eu o deixasse e facilmente ele seria encontrado, porque a pracinha é um lugar onde pessoas levam seus cachorrinhos sempre muito bonitos e bem tratados para passear.

Tem um texto do Freud em que ele fala que um presente só é bom quando a gente não gostaria de livrar-se dele. É por isso que eu escolhi para deixar um livro que gosto muito. Um livro que peguei hoje para ler mais uma vez os meus textos preferidos, dentre os quais esse que eu escolhi para o começo do post, e que eu penso que tem a ver com o que quero dizer. E eu não quero dizer só sobre o desapego com um livro que a gente pode deixar em algum lugar para uma pessoa encontrar. Eu quero dizer do que a gente pode dar sempre. O que de nós que podemos dar sempre. Dar-se enfim, diz a Clarice.

Sabe que eu tenho estado bem chateada com algumas coisas específicas...Um coração partido aqui, uma decepçãozinha ali. Tudo coisa que acontece quando a gente deixa o coração livre (livre para os outros entrarem). E quando fazemos isso, nesses momentos em nos damos enfim, verdadeiramente somos. Isso tem riscos. Mas pensando bem, tem muito mais de onde veio todo esse afeto. De verdade, a fonte parece infindável, porque eu continuo com essa disponibilidade, sem avareza alguma.

Sempre fui da opinião que uma das coisas fundamentais para uma amizade dar certo é a possibilidade nossa de abrir mão de quem a gente gosta. Não abrir mão no sentido de desistirmos. Abrir mão da presença constante, da atenção diária. Odeio cobrança de amizade, de amor, de presença. Mas falta de reciprocidade acaba comigo. Falta de disponibilidade e de honestidade também. Tenho amigas, a quem eu posso dizer "Olha, hoje eu não quero conversar", e assunto encerrado. Mas me dói o coração quando as minhas tentativas morrem no vácuo, me sinto desse tamanhinho.

Por isso, o livro que vou abandonar hoje, livrar-me sem apego é este: "Crônicas para jovens de amor e amizade". E espero que quem encontrá-lo goste como eu gosto dele, e se precisar dessas palavras como eu precisei, que faça bom proveito, e que se não, passe adiante, porque tem gente que precisa.

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