a dona desse blog
é de uma teimosia absurda. além de ser psicóloga, é leitora, aspirante à escritora, filha, irmã, tia e amiga, é indecisa por natureza, não sabe fazer planos e deixa sua vida ser dominada por uma ansiedade que ela sempre achou que disfarçava bem. acha que todo dia é ideal pra questionar se suas ações estão certas, se está sendo justa consigo, se faz o que gosta (e por enquanto faz). é uma dessas pessoas que gosta da solidão da própria companhia mas não dispensa uma cervejinha com aquelas pessoas que sabem conversar, de preferência em um boteco bem boteco, porque estes servem as mais geladas.

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  terça-feira, 19 de outubro de 2010
Sobre o que fica e não passa


É muito difícil consolar alguém de coração partido. Acho que é impossível. Mais que colo, mais que um olhar de compreensão, ouvido atento, abraço apertado e um agrado de nada (bala, chocolate, flor), amigo não tem o que fazer. E apesar disso, essas coisas todas outras precisam ser feitas, por menos efetivas que sejam na "cura".

Ontem eu conversava com uma querida que teve o coração partido. Namoro longo já, alguns anos, muita história, muitas lembranças. Ela me falava sobre a dificuldade em fazer o que sempre fez. Sobre quanto é dolorido olhar para o lado e ver algo que leva os devaneios para quem lhe partiu o coração. Até ficar em casa dói. Porque a casa também fez parte do cenário.

Na semana passada eu tentava conversar com ela sobre isso, sabendo que nessas situações, a pessoa escuta, mas não processa o que os outros falam. É que essa capacidade de processar informações fica muito defeituosa em caso de coração partido. Eu tenho a impressão que essa ferramenta tá colada logo atrás do coração, e que claro que se ele foi partido, ela tem uma pane, fica desgastada, meio esquisita. Então, para quem continua a ser o ouvido para o amigo que sofre, paciência é o requisito primeiro. Provavelmente você vai ter que repetir vezes sem fim histórias de corações que se recuperaram (é que pessoas de coração partido não conseguem acreditar que isso é possível e se você já teve o seu, sabe que a dor não é metafórica, ela é física e se chama angústia), você vai ter que dizer para ela as coisas que ela pode fazer pra se divertir, e ela vai rebater dizendo que isso vai fazer ela sofrer mais, porque vai lembrá-la do fulano. E ainda assim, você vai ter que ter paciência (não para sempre, porque também chega a hora do chacoalhão, mas é bom esperar para fazer isso, no começo, não dá).

Ela me perguntou o que eu faço pra ficar feliz. E eu disse que eu compro flores, faço uma comida gostosa, vou caminhar no parque num dia bonito sem intenção alguma (muito menos de exercício), vou ao cinema, compro frutas e verduras gostosas, ligo para quem eu gosto e de quem sinto saudades, coloco uma roupa bem linda e se for possível, tomo sorvete. Essas coisas costumam ter graça fazendo junto. Mas elas precisam ter graça quando a gente faz sozinho também.

Ela também disse que ficava muito triste porque acredita que o fulano não está sofrendo como ela. É que ninguém sofre como a gente e a gente não sofre como ninguém. E por mais insignificante que ela se sinta hoje em relação ao tamanho da significância dele na vida dela, ela tá errada. Marcas, todos deixamos. Ela deixou as dela. Lacuna Inc, (in) felizmente só existe na ficção, gente.

E aí pensando nessa conversa, lembrei de uma cena de 500 days off Summer em que os dois se encontram no parque que ele gostava de ir. Tom vê a Summer sentada naquele banco em que sentaram juntos. E por maior que tenha sido a dor dele, e por menos que ele tenha sentido ter representado para ela, ela levou um pouco dele na vida que seguiu. Porque a vida segue, a minha, a sua, da minha amiga que hoje está triste, de todo mundo que se permite seguir em frente.

Tem uma música de She&Him que eu gosto muito. O nome dela é Black Hole. Acho que o buraco negro é o lugar em que a gente se sente quando passa por situações como a da minha amiga. Acho que tudo fica confuso nesses momentos, é por isso que a gente acha que a dor não vai terminar. E quando ela termina, e depois a gente sente a dor de novo (em outra situação de coração partido), a gente esquece, pensa de novo que não vai sobreviver. E vai. Eu não acredito que as coisas passem como falam por aí. Que a gente se recupera, zero bala, pronto pra outra. Não, não. Acredito que a dor passa sim, que essa sensação de buraco negro vai embora. Mas a marca fica. Fica pra sempre e vai estar presente na próxima vez: próxima vez em que a gente se apaixona, em que a gente briga, em que a gente se sente culpado por não ter sido perfeito. Repete-se, e se elabora já dizia Freud.

No final, acho que, de vez em quando, todos nos sentimos sozinhos numa bicicleta para dois (outro pedaço da música que eu gosto). Mas acho também que bom mesmo é encontrar alguém que esteja disposto não a pedalar a mesma bicicleta, mas acompanhar nosso ritmo, cada um com a sua bicicleta.

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