a dona desse blog
é de uma teimosia absurda. além de ser psicóloga, professora, leitora, aspirante à escritora, filha, irmã, tia, amiga e namorada, é indecisa por natureza, não sabe fazer planos e deixa sua vida ser dominada por uma ansiedade que ela sempre achou que disfarçava bem. acha que todo dia é ideal pra questionar se suas ações estão certas, se está sendo justa consigo, se faz o que gosta (e por enquanto faz). é uma dessas pessoas que gosta da solidão da própria companhia mas não dispensa uma cervejinha com aquelas pessoas que sabem conversar, de preferência em um boteco bem boteco, porque estes servem as mais geladas.

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  terça-feira, 10 de novembro de 2009
Sobre o que eu pensei hoje

Quando estou sozinha em algum lugar eu penso mais. Toda segunda feira, quando meu ônibus percorre a Avenida Angélica, fico olhando admirada para os sobrados e palacetes que resistiram ao tempo e torço para não ver a placa de nenhuma empresa privada, mostrando que as pessoas que moraram ali um dia não existem mais, ou desistiram. Alguém vendeu as casas que contam histórias.

Mesmo quando essas casas parecem decadentes, se percebo que ali mora gente, dá um alívio. Ontem em meio a dois prédios gigantes, bem próximo da Praça Buenos Aires, vi uma senhorinha na varanda. A casa precisaria de uma reforma, uma pintura, uma revigorada, mas ainda assim, tem mais graça que as restauradas por bancos e cuidadas por empresas terceirizadas. A minha curiosidade é entrar e ver o que restou das famílias, enfim, até onde a decadência chegou do lado de dentro.

Tenho a mesma curiosidade em relação às pessoas enterradas em cemitérios. Meu ônibus passa também em frente ao Cemitério da Consolação e da Necrópole São Paulo (sempre gostei da palavra necrópole). Toda vez eu penso que preciso descer por ali algum dia e dar uma volta nos cemitérios, olhar os túmulos, fazer as contas de quantos anos as pessoas tinham quando morreram, e tentar forjar as histórias delas na minha cabecinha. É besteira, mas eu faço isso desde pequena (quando vim morar perto de um cemitério).

Em frente à Necrópole São Paulo existem várias lojas de antiguidade. Minha irmã diz que cada cadeira dessas vem com uns dez fantasmas em cima. Mas eu gosto, quero mais é que os fantasmas e as histórias deles venham pra minha casa. Ainda não posso montar a minha casa, mas quando eu puder, quero coisas antigas fazendo contraponto com as novas. Não quero que essas coisas se percam, essas que um dia foram novas, modernas, chiques e que tiveram um valor para alguém, que presenciaram cenas, como se esses objetivos tivessem sentimentos, é estranho pensar nisso, mas eu penso.

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  segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Sobre expectativas

Esse tema é recorrente (se não no meu blog, na minha vida). Sou daquelas que alimenta tantas delas que a lista das decepções cresce numa progressão geométrica, o que significa que para cada expectativa, o sentimento de frustração vem multiplicado.

Melhorei, melhorei muito, e que ninguém diga o contrário porque houve tempos em que, ao invés de lidar com as situações, eu escolhia guardar o rancor, ir dormir com um sapo ou mais entalados no fundo da garganta e se não me afastasse da pessoa, dava um jeito de castigá-la, talvez de forma muito indireta, o que a deixaria sem entender absolutamente nada.

As pessoas se comportam de forma tão diversa ao que imaginamos. Isso da liberdade alheia é o que fode a vida mesmo. Sartre sabia das coisas. E aí eu vou pra cama remoendo desculpas que não foram pedidas, considerações que não foram dadas, palavras que não pareceram ter sido consideradas.

É tão ruim ir dormir com a sensação de ter sido preterida. De dar mais do que as pessoas querem/podem aceitar e, por isso, esperar muito além do que estão dispostas a doar. É quando lembro que odeio cobranças e que elas podem acabar com um relacionamento. Mas lembro também que quando existe equilíbrio de afeto, respeito, companheirismo, não tem porquê cobrar coisa alguma.

E aí, eu faço a feliz e brilhante descoberta que nessas horas, a melhor coisa é usar da sinceridade, aquela sinceridade boa e que não fere, que significa todo o carinho que você pode dedicar a uma pessoa e por isso dar a ela mais de você, mais do que você sente e pensa sobre as coisas. Esse caminho, quando percorrido sem o caderno em que se anotam as mágoas, leva a uma coisa tão necessária em qualquer relacionamento, essa coisinha básica que se chama compreensão.

*Note que existe diferença entre ser compreensivo e ser feito de idiota. É preciso descubrir a linha tênue que há aí.

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  sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Sobre quando usamos o outro

Apesar de ter uma fé infindável na humanidade e na bondade, não sou ingênua, ou não tanto quanto possa parecer. Gosto de procurar o melhor das pessoas e quase sempre tenho tido sucesso, o que me incentiva a continar tentando.

Ainda assim, algumas vezes as pessoas fazem coisas abomináveis e muitas vezes movidas pelo sofrimento, angústia, raiva, tristeza, enfim, os motivos são muitos para usar o outro. Usamos para quê? Pra muitas coisas. Elas se resumem - quase sempre - na necessidade humana de cobrir faltas que sempre vão existir, inevitável.

Mas o que eu abomino mesmo, e com todas as minhas forças, é quando alguém usa o outro, sabe que está usando e utiliza sofrimento como justitificativa. E aí eu digo, o sofrimento pode até explicar essa atitude desprezível, mas não justifica, de modo algum. Algumas ações são maldosas, ferem, são ridículas e patéticas, o que me provoca (por frações de segundo) pena.

Todo mundo tem o direito de sofrer, mas por favor, não dá para fazer com esse sofrimento um estandarte para esfregar na cara de quem já não se preocupa mais, utilizando como mastro alguém que não tem nada a ver com isso, e que muito provavelmente, está em busca de um pouco de amor. Reconhecer isso é compaixão, bondade, afeto pelo outro. Quem usa o outro, não pode realmente amar ninguém.

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  sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Sobre o passado

Nada passa, nunca; tudo o que acontece é indelével. Acrescento: sobretudo os amores, por mais que acabem, continuam vivendo, subterrâneos, dentro de nós, porque, bem ou mal, são essas as vivências que mais nos formaram e transformaram.
(Contardo Calligaris)


Quando sofremos abusamos da transitoriedade das coisas, dizemos que isso vai passar, questão de tempo. E um dia passa sim, pelo menos a dor, a angústia, o aperto no coração que sentíamos com aquela situação. A primeira vez que a gente sofre conscientemente é tão, mas tão arrasador que pensamos que é impossível, que não vai dar pra aguentar.

O que não passa é a marca que fica das passagens que nos arrancam da posição confortável e nos fazem deparar com nossos erros, os erros alheios, com as nossas faltas, com o nosso gozo pelo sofrimento. Quando um amor começa temos a ideia que ele é perfeito em toda a sua composição, perfeito como uma partitura, fruto do nosso narcisismo, não há nenhum amor melhor. Quando o amor termina procuramos em cada canto escuro da memória onde que o erro aconteceu, quem foi o culpado, quem foi inocente, onde se perdeu o que era tão bacana.

É tão difícil conviver com a culpa pelo fim de algo que era caro que arde, incomoda, é uma daquelas feridas que não cicatrizam, é a própria falta da possibilidade de deixar pra trás, seguir em frente, elaborar. Freud falava em recordar, repetir e elaborar e no quanto repetimos escolhas, amores, formas de agir até que a elaboração seja possível. Repetimos sempre, mas nem sempre isso é ruim. A repetição é também uma forma de se corrigir e de tentar novamente. Mas quando ela nos leva a novos abismos - ou a velhos - é tão perigoso que juro que me dá medo.

O que eu aprendi nos últimos anos, pelas vivências me me formaram e transformaram, foi entender o quanto somos livres diante das muitas situações que porventura ainda nos afligem. Livre para permanecermos agarrados a elas ou para voarmos pelo mundo, procurando novos meios, outros caminhos. Poder pensar sobre essas coisas me permitiu voltar a encontrar o amor, na mesma pessoa (mas de uma forma totalmente diferente). Eu queria sim poder tirar os sofrimentos e as angústias das pessoas que gosto com a mão. Mas eu não posso. Eu posso escutar, e isso continuo fazendo.

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  sábado, 3 de outubro de 2009
Sobre 1/4

24 anos é uma idade sem graça que nem vale a pena ser comemorada. 25, por outro lado, merece todas as celebrações. Nos meus sonhos de criança, estaria casada, com um filho, realizada profissionalmene e feliz da vida. Essas expectativas realmente não se cumpriram e não é tão difícil assim conviver com isso. Fiz boas escolhas, não me arrependo delas.

Hoje eu sinto saudades de muitas coisas mas o que mais me domina são as expectativas. O que vai acontecer daqui pra frente? Como a minha vida vai seguir? Eu não sei, apesar de ter algumas ideias. Hoje quando ele me ligou, eu chorei. Eu chorei porque ninguém me abraçou, e mesmo que abraçasse, não seria o abraço dele, esse abraço gostoso que me dá a impressão que nada de ruim pode acontecer no mundo.

Eu sei que ele me disse que esse é só um aniversário que não passamos juntos mas que muitos outros virão. Desde que ele faz parte da minha vida, foram 4 aniversários. O primeiro, ele tinha outra namorada, o segundo, estávamos juntos, o terceiro, estávamos juntos mas o namoro tinha terminado por uns dias e o quarto é esse. Se eu pudesse escolher, escolheria ficar pertinho, ouvir ele pedir pra eu deitar bem perto e deixar o sono chegar. Seria bom passar meus outros 25 ou 50 anos assim.

Eu gosto de ter 25 anos, melhor que ter 24. Gosto dos rumos que a minha vida tomou. Mas nesse dia, por favor, me reservo o direito de um kitsch metafísico. Feliz não estou. Mas gostaria de dizer que hoje me sinto bem.



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  terça-feira, 29 de setembro de 2009
Sobre não desistir

Desistir é mais fácil, o gasto de energia é menor. Algo está difícil, você pára tudo e deixa pra lá, procura outra coisa pra fazer, pede pra alguém fazer por você.

Não desistir, por outro lado, demanda muito mais disposição, tempo, vontade de começar tudo novamente, de dar chances, de experimentar, enfim, de tentar.

E quando apesar de todas as tentativas, mesmo assim não dá certo, a tranquilidade que você sente aplaca um pouco a tristeza e nos dá forças para recomeçar. O fato de sempre tentar me ajuda a continuar esperando. A espera pelos dias que às vezes passam rápido, e outras se arrastam, a espera pelas datas em que a gente pode se encontrar e que provocam de saída uma certa tristeza porque "a hora do encontro é também despedida".

Mas agora faltam pouco mais de dois meses desse tempo todo que eu sei que deve ter sido mais difícil pra ele do que pra mim. Eu estou longe dele. Ele está longe de mim, da família, dos amigos, da casa, do país, enfim, e eu sei o que é a solidão em um país estrangeiro. Agora falta pouco, muito pouco. E se tem algo que me faz continuar firme é a doçura dele que se faz presente o tempo todo e que não me deixa esquecer o quanto é bonito o que nós temos.

Quando eu me sinto sozinha, quando a noite me angustia, não é de companhia que eu sinto falta. É da companhia dele. Agora é a melhor hora para não desistir.

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  sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Sobre reedições

Recordar, repetir e elaborar. Para Freud é assim que nós vivemos nossas vidas e eu não poderia concordar mais. Relendo meus antigos textos, me deparei com um que fala muito sobre o que eu venho sentido nos últimos dias. E decidi editá-lo, e colocá-lo aqui.

Nos períodos mais difíceis da minha vida rascunhar frases - mesmo que não sejam lidas por ninguém - me reconforta [...]: pela linguagem supero meu caso particular, comungo com toda a humanidade. É na minha opinião uma das tarefas essenciais da literatura, e que a torna insubstituível: superar essa solidão que nos é comum a todos e que apesar disso, nos torna estranhos uns aos olhos dos outros(Simone de Beauvoir - Uma morte muito suave).

Ela escreveu esse livro depois da morte da mãe. Outro dia eu disse que existem dores miseravelmente pequenas se comparadas a outras.

Mas esqueci de dizer que acho errado subestimar as próprias dores. Na verdade, é errado subestimar as nossas experiências e acreditar que o que acontece conosco não é nada perto do que acontece com os outros. Olhando de fora, a vida alheia é mais interessante, mais cheia de romance, comédia e ação. E é difícil parar pra pensar e procurar essas três coisas na própria vida.

Minha vida se transformou em uma novela que parecia não ter fim. Mas só quem pode terminar com uma novela, enredo, roteiro, é aquela pessoa que está escrevendo, certo? E quem senão nós somos responsáveis pelas coisas que acontecem com a gente? Quem tem o poder de concluir coisas ou de dar a sensação de inacabamento a elas?

Somos nós quem deixamos portas, janelas, frestas abertas para um reinício. Pode até ser que o colorido mude um pouco, mas no fim, salvo raras exceções, quando na vida perde-se a magia do primeiro encontro, do primeiro beijo, do primeiro momento especial, do primeiro "eu te amo" - precipitado ou não - a continuação sempre soa esquisita e só de muito longe lembra a felicidade daqueles dias que passaram e nos quais a gente se apóia cegamente, lembrando como foram bons.

A gente briga contra o tempo e faz um pedacinho da vida ficar parado.

Os dias passam bem rápido. "Precipitam-se tragicamente", citando mais uma vez Simone de Beauvoir, que é hoje a minha autora predileta. E é tão difícil não saber o que vai acontecer...Quando a gente tem alguém ao lado, acreditar que aquela companhia não vai embora reconforta, é doce, é indescritível. Mas pode ser que vá.

É preciso deixar que as coisas aconteçam. E para pessoas ansiosas como eu, esperar pode ser uma tortura ainda maior do que a dor dos tombos sem fim.

Eu disse que estava infeliz, mas não estou, não. É claro que eu tenho meus momentos de melancolia, mas se alguém não tiver, por favor, eu preciso dessa receita. Na maior parte do dia eu faço coisas por mim, mas por mais que eu aprecie muito meus momentos de solidão, eu gosto mesmo é das pessoas por perto.

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